quinta-feira, março 10, 2005

Como deuses

Ninguém é verdadeiramente superficial. Mesmo a vida que aparenta a maior das vulgaridades, um estar embrenhado – permanentemente ocupado e pre-ocupado – nas maiores banalidades da existência, aquelas que habitualmente designamos por fúteis, até o indivíduo que parece jamais ter tido qualquer sentimento profundo, mesmo a pessoa mais levemente exterior em tudo, é profundamente profunda, abissal, de uma densidade cujo alcance é ignorado pela própria mas por vezes sentido, talvez como indizível, mas sentido, chorado e quase sempre não reconhecido pelos outros. Por isso, as palavras: nelas viajamos por nós mesmos e nos descobrimos como deuses das pequenas grandes coisas.

quarta-feira, março 09, 2005

O mal existe

Puro mal. Estrita vontade de infligir dor a outro, e daí retirar prazer, alguma espécie de força. Sentir-se assim, de algum modo, superior, forte apenas – e nada mais – na medida em que se perspectiva na dor do outro uma fraqueza, a qual faz da ausência de dor uma potência que, noutras circunstâncias, se dissiparia no equilíbrio neutralizador das outras potências idênticas em não sentir dor. Não numa perspectiva essencialista, o mal existe, este mal existe, feito de uma intencionalidade que recolhe dinamismo não na criação mas na destruição. Perante isto, que fazer? Destruir está fora de questão.

segunda-feira, março 07, 2005

Lembretes

No telemóvel fixamos lembretes que nos recordam aquilo que não quisemos esquecer. Não confiámos na nossa memória e agora um objecto tecnológico faz a sua vez. Delegamos faculdades nos utensílios que nos rodeiam, os quais piscam luzes que exibem setas que nos direccionam para onde (queríamos?) devemos ir. Como se pudéssemos ter programado toda uma vida, ou alguém por nós, avançamos no projecto que nos aponta paternalmente o chão onde o bebé deve aprender a andar e a colocar o pezinho no lugar certo, antes que mude de ideias…

quinta-feira, março 03, 2005

Ver para querer?

Como é o meu olhar sobre o teu? Poderás tu dizer-mo, sem mo desdizeres? Onde nos entendemos? Em quê nos cruzamos? As palavras aproximam-nos decerto… mas… e os corpos? Que sentidos valorizamos? A visão, claro. Só vendo podemos crer (ou querer?), só a luz e a sua ausência desenham figuras, até as palavras o dizem, figurando. As palavras – essas que se deixarão de ouvir. Apenas lemos. E de pensar que talvez tenhamos começado a ler para reconhecer o corpo... aquele que não se vai deixar perder, aquele que espera surpreender-nos, aquecendo-se na aparente sonolência do silêncio e requintando a vontade (cega?) desconhecida que talvez estivesse no princípio de tudo e que está – estou certo – por trás de cada palavra que ainda finge ignorá-la.

terça-feira, março 01, 2005

Nada, a não ser o desejo

Nada, a não ser o desejo. O que não nos toca (perante o qual somos indiferentes) é oculto à percepção, mesmo que de algum modo uma sensação disso nos rasure. Nada, a não ser o desejo. Tudo o resto está escondido por trás do coração que bate e eleva a realidade tudo aquilo que nos impele a ser. Ser é inter-esse. Querendo, no ser onde mergulhamos somos causa do impulso que nos leva. E esse impulso, nada a não ser o desejo, já é ser? De quem, do quê, onde?

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O que não se agarra

Não encontramos o momento absoluto. Mas construímos lugares de encontros indizíveis, feitos de afectos que se gravam na memória na qualidade de outroras mais presentes do que o presente, determinantes de movimentos que enobrecem apenas porque revivem em nós o precioso amoroso – esse cujo encontro ainda é do absoluto que só não achamos porque não se agarra, desvela-se.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Os dias...

Encher os dias de coisas, de projectos, de movimentos com fins infindáveis, num preenchimento do espaço com o desejo do denso veloz. Assim escoa-se o tempo, tão rápido quanto talhamos as rochas circundantes, inscrevendo nossos nomes em todos os rastos, em todos os ecos que esperamos audíveis. Pouco a pouco, algo se erguerá por trás do caminho. O que é? Nem nós sabemos – construtores ignotos.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Abrindo chãos

Vivemos no problema. E isso parece abismal, vertiginoso, precisamente na medida em que instala um permanente estado de crise, de revisão insistente do chão que pisamos, o qual fica movediço, escorregadio, e no qual nenhum de nós se pode gabar não ter caído. As paredes tanto se afastam formando horizontes imensos como nos apertam em neurastenia claustrofóbica. Tão depressa construímos como destruímos. Algum dia alguma coisa permanecerá? Depois do camelo, sempre a criança?

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Tábuas coloridas sobre um chão branco

E pronto, uma decisão está tomada. Agora falta o resto... todas as verdadeiras decisões. Todos os gestos se exigem, o peso da vigilância sobre uma nova emergência. Haverá algum plano? Alguém tem um projecto? Eu e tu, temos algum desígnio? Lentamente, deixamos cair tábuas coloridas sobre um chão branco. Ouve-se um estrondo. Os ecos esperam ouvidos ao fundo, bem longe, lá, onde a polis é cosmopolita. Aos poucos, seguramos um futuro, mesmo que ignoto – muito provavelmente...

sábado, fevereiro 19, 2005

Um dia de reflexão?

Um dia para designar. Quem escolher? Por quê escolher? Alguém leu os programas dos partidos? Alguém questionou consequentemente as propostas de cada força política? Sabemos o que vamos fazer? Temos alguma razão profunda para as opções que fazemos? Os valores seguidos emergem de razões ou de emoções? Intuição, não é? Bem me parecia. E qual é o mal?

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Os pés junto à lareira

E, pequeno lugar a pequeno lugar, as imagens vão nascendo como quem planta ervas daninhas. Surgem descontroladamente, emergindo uma infinidade de pequenos lugares que, na confusão da sua profusão complexa, perdem qualquer qualidade doméstica, local ou artesanal que porventura tivessem. Uma bola de fogo aquece-nos os pés junto à lareira onde nos sentamos bem protegidos por uma manta sobre as pernas, umas pernas inúteis. Não corremos. O corpo vê e tecla. Isso é mau? Não sei dizer. O caminho tapa-me a presença; contudo, deseja-se e o corpo antecede-nos...

terça-feira, fevereiro 15, 2005

E, no entanto, ela move-se.

Ela e nós. Caminha-se, move-se, procriam-se lugares, novos tempos esculpidos por esse facto, ou por esse sonho que se nos entranha nas pernas.
De facto, a palavra caminho é uma palavra encantadora, pois nela encontramos a nossa ausência do aqui, mas também a nossa perpétua exigência de presença futura. A magia: incompletude, a distância perfeita da perfeição. Pois a imperfeição é o que nos distancia dos animais, cuja perfeição é a plenitude do nada, o não-caminho.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Amizade pós-moderna

Olhar as pessoas de frente, quando se caminha na rua. Fixar os seus olhos obstinadamente até que as obriguemos a parar e a iniciar uma conversa, um diálogo inevitável, ou, ao contrário, continuemos até que o andar nos faça cruzar e percamos essas pessoas para sempre. Contudo, olhou-se, e nesse olhar concatenou-se maciçamente o peso insuportável (até ás lágrimas!) de uma questão, ou de uma possibilidade, ou talvez apenas de uma curiosidade: aqui estamos nós, desconhecemo-nos, mas somos humanos; nessa generalidade, a palavra humanos, podemos incluir-nos os dois e todos aqueles por quem nos cruzamos na rua. Tenho pernas, braços, tronco e olhos. Vês? Que bem os vês! Não desvies. Desviaste, não suportaste. Eu percebo, não me conheces… Mas podíamos ter falado, trocado ideias verdadeiramente importantes, construído uma intimidade moderna, pós-moderna até. Isso, sim, seria uma intimidade pós-moderna: sermos todos grandes amigos e recebermos todos os olhares como convites ao diálogo.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Onde está o político?

Vê-se a imagem do político (e por imagem entende-se, além da figura em si, todo o movimento de configuração telegénica e fotográfica, na qual se incluem os discursos pronunciados ou tácitos). Ele também vê a sua própria imagem, o seu duplo construído. Elabora-o, alimentando um ser figurativo e colorido de um hiper-realismo estonteante: o político autêntico desaparece, não existe. Está perdido, velado por trás do rosto que o próprio, depois de bem conhecer as regras do jogo, manipula para nós: espectadores – espera-se! – bem menos embasbacados do que ele pensa.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

As palavras também comem

Mas apesar de tudo podemos falar, e isso é uma liberdade, é uma nossa liberdade. Cada nossa palavra tece lentamente um gigantesco tecido de retalhos. Esses fragmentos são como espelhos, o texto é um enorme tecido de reflexos onde os nossos rostos e os nossos gestos, além das nossas mãos, movem morfologicamente a existência e a sua reflexividade imanente.
Apesar de tudo, as possibilidades estão sempre em aberto, independentemente das ilusões histórico-retrospectivas com tendência para a totalização redutora de uma passado projectado em absoluto no presente. Faremos! E isso está nas nossas mãos, embora mais nas de uns do que nas de outros. Contudo, por vezes os dados também calham nas pessoas certas…

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Eleger as imagens do quotidiano

As eleições já enchem por completo os noticiários. A propaganda é um dado imposto à realidade circundante, mediaticamente despejada no vão de acesso aos sentidos humanos. Todos nós podemos saber o que eles farão por nós, o seu povo, o seu querido povo, do qual eles dependem – o que poderia ser uma vantagem nossa. Mas não é. Não é porque alguém vai ser eleito, um deles, um dos bonecos televisivos vai ter poder, mais poder do que imaginamos. Alguns perguntam: qual o melhor? Mas infelizmente a pergunta é outra: qual o menos-mal? Do mal, o menos, não é? No mínimo comum, avançamos.
Portanto, temos que eleger um deles, um dos que se interpõem entre nós e o nosso quotidiano, um dos que povoam o dia-a-dia de banalidades sérias, de ridículos trágicos e de mentiras cuja falsidade gera o peso verídico de uma realidade que nos mostra o poder da ambição pessoal em vez do poder da competência. A política é técnica, hoje é técnica do ser-visto. Elegemos o que é visto, a imagem do quotidiano que nos há-de transformar a própria imagem. A imagem que todos hoje repugnamos. Esta a perversidade: eleger a repugnância. Avancemos!

sexta-feira, novembro 19, 2004

Insónias

Será que as pessoas antigamente tinham insónias? Julgo que não. Imagino outros tempos como se uma certa tranquilidade rústica os dominasse, como se a calma fosse o estado natural da realidade psíquica dos indivíduos, numa osmose total com o exterior, igualmente lento e meticulosamente cadenciado: cada gota caindo em cada segundo com a precisão do milímetro no metro adivinhado… lentamente....
É da ausência de hoje que falo, da presença frenética do nada, da circulação contínua de uma roda dentada que rola por cima dos corpos, despertando neles desejo e dor, busca e queda, paradoxo masoquista demasiado subterrâneo para olvidar o sadismo do observador consternado.
Visto isto, tenho decidido conformar-me. Porque não? O mundo é como é e não dormir é mau, faz mal à saúde. Por isso, aceito a felicidade, esta felicidade, a da leveza absoluta e veloz. A partir daqui decerto dormirei. Nada fará parar a minha infinita melancolia, o meu pesado tédio, e hei-de cair na cama de olhos fechados por toneladas de velocidade e sonhos brancos e sem sobressaltos. Hei-de ter uma vida plana e um pijama. Este é o meu projecto: acalmar-me e ter sono.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Baloiço sobre o mar de Magalhães

A casa, o lugar onde podemos dormir, onde ele se deita. Estendido na cama, flui, estagnado corporalmente, mas dinâmico cosmológicamente, criado pelo Universo a partir de seus braços abertos, de seu corpo bailante no espaço sideral, o peito oferecido a deus, aquele que esquece. Todas as estrelas confluem no olho absolutizante, galáxias gravitam em torno do dedo que aponta um caminho, e tudo na mesma escapa, foge por entre o que foi dito, lá onde tudo está por dizer. Nada se totaliza. No entanto, o universo está lá, e com ele o absurdo, o silêncio ensurdecedor, o ruído absoluto. Esperemos que seja uma congeminação consciente, porque se o muro é parede infinitamente maciça, mais vale ser folha que Homem. No entanto, podemos pensá-lo, dizê-lo. Assim está todo o Universo dentro do Homem, e ele quase morre; mas o Universo salva-se, não se deixa morrer no ser humano, apenas lhe impõe o fio da navalha, o toque finito no infinito, a quase morte, a dor de ter consciência, o baloiço sobre o mar de Magalhães.

quinta-feira, julho 08, 2004

A identidade no tempo ou como a foto antiga mente

Nunca nos despedimos definitivamente do passado, pois um zero é zero, ou seja, nada, e nunca se começa do nada; isto porque a vida é tudo, é caminhar como uma jibóia que permanentemente se alimenta e cresce até ao fim sem recomeço. Neste fim – a morte – a memória é dos outros e do animal apenas resta um rosto ou uma máscara. O que vai dar ao mesmo, visto que a interioridade profunda se esfuma no impalpável fluxo do não-reificável.
Se assim for, a máscara é o rosto possível e a polissemia (a máscara-rosto de mil luzes coloridas, tantas quantas as perspectivas) a multiplicidade de identidades minhas que encarnam na vivência dos outros (esses que erguem a minha identidade depois da minha morte; cada um a sua, note-se).
No fundo, a identidade pessoal e o sentido que a mim atribuo no meu íntimo morrem comigo, e o sentido externo, o visível, e por isso sobrevivente e verdadeiro, está no Outro, sempre no Outro, na medida em que é nele que eu me torno dizível e com alguma permanência (a continuidade fixável e palpável necessária à identidade que sobrevive à minha finitude). A verdadeira identidade pessoal é inevitavelmente finita e só vive enquanto recomeço e de um modo intransmissível; no fim, sobrevive apenas um sentido heterogéneo, uma hetero-identidade, não já a minha, mas a única possível, que é apenas provavelmente finita – não de um modo irremediável, portanto.
Daí a aporia: a minha identidade (possível, exterior e apenas provavelmente finita) só sobrevive sem mim, todavia já não é a identidade entendida enquanto representação de um ser palpável e limitável na sua definição e vivência, mas um sentido que de mim emana e que eu não controlo minimamente, uma identidade que se configura como representação de mim nos outros.
Concluindo: a identidade existe, na medida em que digo eu e os outros dizem tu; mas não existem rochas na alma humana; é na finitude que se configura a identidade pessoal, interior; mas é na permanência (apenas provavelmente finita) que se concretiza a identidade como sentido concreto e transmissível, e esta vive no Outro.

Portanto, cuidado com as cartas que envias, levam um rosto que não conheces por inteiro.

domingo, julho 04, 2004

Curto comentário a O Homem-Deus ou O sentido da vida, Luc Ferry

A queda da transcendência não significou o seu desaparecimento, mas antes o seu deslocamento para o homem, o Homem-Deus. De facto, com a desconstrução das religiões e da crença em Deus, a transcendência, algo imanente ao homem, não foi varrida positivamente do nosso ser. Ela manifesta-se no próprio Homem, na sua infinitização como incogniscível, sacralizado a partir da sua condição única. A morte de Deus não transformou os Homens em animais, mas antes em novos deuses, não no sentido de todo-poderosos, mas no de intocáveis, únicos e insubstituíveis. As próprias doutrinas materialistas têm uma dimensão adventícia, o que as coloca no registo onto-teológico - a promessa de um devir de certo modo transcendente.
O amor moderno como metamorfização institucionalizada do sentido comum e divino em exclusividade para o mais próximo é um bom exemplo. Outro é o da proliferação das organizações não governamentais (ONG’s,) em que o pendor da acção, com todas as críticas que se lhes possa fazer, se focaliza no humano enquanto humano, independentemente da sua nacionalidade, raça ou religião.
Apesar de se ter perdido uma certa confiança natural em relação à morte – possibilitada pela crença na vida eterna que as religiões fundamentavam –, além da hegemonia de uma certa cultura do corpo exageradamente hedonista e de um individualismo socialmente esquizofrénico, o ser-humano encontra em si um reduto de transcendência que nenhum positivismo conseguiu eliminar, uma sacralização do outro, o qual devo respeitar como tal e proteger como se me abrigasse a mim próprio. O sentido deixou de vir de cima, de uma autoridade teológica, agora desconstruída pela ciência, e passou a ser procurado no próprio Homem, em mim e no próximo, onde a abertura se revela infinita e onde a verificabilidade não passa de uma ingenuidade.