Escrever é textualizar um dizer que, em princípio e a maior parte das vezes, se destina a uma terceiro anónimo, um leitor ideal (um pouco como o descreve Umberto Eco) relativamente ao qual exercemos o esforço de codificação do nosso discurso procurando respeitar a sua hipotética descodificação. Contudo, por vezes, tanto para quem escreve como para quem lê, torna-se irresistível escrever pensando em alguém e lendo interpretando-se como destinatário do texto. Nestes casos, cria-se na massa anónima uma leve ponte de sentido que só dois reconhecem e procuram com o tempo transformar em casa - aquela que, segundo Ruy Belo, é a responsável pela criação da palavra intimidade.
segunda-feira, setembro 05, 2005
sábado, setembro 03, 2005
Vergonha
Até poderia concordar com a guerra no Iraque, com a recusa em assinar o tratado de Quioto, com a liberalização da venda de armas, ou mesmo com a pena de morte. Poderia ser neo-conservador, liberal, achar belas e profundas as palavras de Bush, não resistir à sua expressividade invulgar, ou mesmo defender o estabelecimento de uma dinastia da sua família como governadora do mundo. Poderia. Mesmo assim, sentiria vergonha, sentiria sempre. Porque o poder americano perdeu-se no seu próprio poder, consumiu-se no império que deu ao mundo uma visão esgotada no lucro somente próprio. Deixou de ser esquecendo-se dos seus próprios pés de barro, dos corpos frágeis que alberga, da História que foi conquistando à água, que volta um dia, com as marés...
sexta-feira, setembro 02, 2005
Mais um exercício
Se eu falar só com palavras, sem querer dizer nada, será que ainda assim digo alguma coisa? É que hoje tendo com naturalidade para o exercício do vazio, um antigo hábito que amiúde me invade e me inscreve escrevente no delírio triunfante do sugar de conteúdos, artifícios que se largam aos cães que procuram sentido, e que mordem, bem sei, que também sou cão, é certo. Mas hoje manso e não quero nada. Melhor, quero o nada, que se deixa fingir como se existisse e não fosse mais um motivo para desenhar, em branco, toda uma razão de existir, um floreado cansado que descreve um cansaço sem esforço.
quinta-feira, setembro 01, 2005
O fazer do tempo
O tempo não nos larga, ainda que se perfile em frente. É massa de leveza, pesada quando a seguramos nas mãos, fugidia sempre que corremos para morder. Claro, o tempo volta; quando o não queremos presente, ele bate que bate na porta que tentamos fechar por trás das costas. Nada desaparece, e a construção rebola como um carrossel que nos vai lembrando de nós, lá atrás, quando um banco de baloiço nos bate no crânio que por vezes desejamos vazio. O tempo não tem desenho, símbolo verdadeiro. É um resto de tinta gatafunhada involuntariamente numa parede, cor que se acumula mais coloridamente que a primeira de todas, sem se deixar fixar numa, naquela que se diz, na que tem nome. O tempo não se nomeia. Por isso, não morre, permanece incógnito a nossos olhos, escondido nas tábuas da recordação, obsidiante, invulgar, eterno, interno, mesmo depois de nós.
sábado, agosto 27, 2005
Homem irreal II
Portanto, o homem irreal sofre de uma dupla alienação: a subjectiva e a objectiva. A primeira delimita-lhe o alcance cognitivo comprazido com a simulação do real sustentado pela segunda. Uma, diminui o horizonte, permitindo o dispêndio de menos esforço, o qual é tanto maior quanto maiores são as exigências de profundidade e extensão; outra, suspende-se do real possibilitando a incondicionalidade que alimenta um permanente estado de jogo que entretém as forças existenciais que de outro modo lhe exigiriam mais vida, maior fundura, mais labor. Esta forma de letargia resulta principalmente da preguiça e da circularidade que ela provoca. O indivíduo não encontra já exterior (real) do qual possa negar o seu estado presente (irreal). Politicamente, vive ausente de si e dos outros, o que, num sistema onde o domínio consumista existe, favorece sempre alguém bem mais real e possuidor que, por sua vez, ajuda a criar a cultura que envolve cada vez mais o homem irreal na sua dormência de rabo na boca.
quinta-feira, agosto 25, 2005
Homem irreal
Consomem, diariamente, minuto a minuto, as chamadas drogas leves. Trabalham, durante o dia, num emprego, geralmente, da área dos serviços, no qual adquirem um salário baixo (como quase todos nós, os portugueses). Vivem, quase sempre, em casa dos pais. Á noite e nos tempos livres, jogam computador e são espectadores dos jogos de futebol que são exibidos na TV, lendo, nos intervalos dos cafés, os jornais desportivos, que alimentam uma socialização predominantemente baseada num conteúdo desportivo e, claro, tóxico (charros) e virtual (jogos de computador). Sem esquecer: sempre mergulhados no ambiente fumarento do cânhamo. Por um lado, do ponto de vista subjectivo, alienam o cérebro das suas capacidades mais elaboradas mediante uma eutanásia lógica e um inebriamento anestesiante proporcionados pelo fumo. Por outro, o real objectivo é alienado através de uma transferência do seu princípio do real para um jogo sem referência ao efectivo real político, económico, ideológico e existencial que os condiciona: o jogo de futebol e o de computador. Que nome podem ter? Talvez homens irreais - a dormência do sistema.
quarta-feira, agosto 17, 2005
A temperatura
Sente-se no ar um vazio de movimentos, um silêncio quente e um fio de luz intenso que parece vasculhar todas os espaços por ocupar. Damos uns passos em frente, lentos, escutando o maciço que assola os ouvidos com a imobilidade do mundo, tacteando uma areia seca presa ao coração que nos entorpece as mãos e nos rasga a língua. Mas cantamos, desafinados, um hino, uma bandeira, e dizemos para nós próprios: o sol está quente.
sexta-feira, agosto 12, 2005
Um dia, um fogo...
Vamos depositando em objectos e estruturas os nossos esforços, rodeando-nos de materiais funcionais e estéticos que concatenam o trabalho realizado para os adquirir, o capital despendido na sua compra ou o simples valor cultural que lhes é atribuído pela sociedade onde nos inserimos. Ao longo da vida, vamos acumulando estas coisas e elas vão valendo toda uma existência. Espalhamo-nos pelo que nos rodeia, onde revemos a nossa identidade, o nosso ser e o nosso poder ser. Um dia, um fogo... E depois, quem somos?
terça-feira, agosto 09, 2005
O homem do futuro VIII
Sim, o universal tradicional já não existe, nem pode vir a ressurgir, a não ser num registo ficcional. Hoje, os próprios Direitos Humanos não são universais de um modo tradicional; isto é, metafisicamente fundamentados. Mas podem, e julgo que devem, assentar numa outra universalidade: a do consenso (um pouco como o diz Habermas). Claro que este cruzamento de individualidades não é verdadeiramente universal, visto haver sempre algum desacordo, algum particularismo que o rompe. Todavia, é universal de um novo modo: no do acordo dialógico produtor de sentido, no de uma pura construção - ao invés da pura descoberta do fundamento desvelado como universalidade, no modo tradicional – que move na direcção de um telos, também ele criado. Assim sendo, no diálogo (não como essência, mas como pragmática) configura-se a idolatria. Esta, porque desejada e lúcida, surge paradoxalmente iconoclasta; ou seja, puro desejo de futuro inscrito em acções presentes, que permanecem abertas ao eterno retorno de uma nova busca de sentido – imagem invisível em perpétua reformulação, forma infinita alvo de reificações finitas. Mas a pergunta impõe-se: será possível construir este universal a partir da maior universalidade possível ou estaremos condenados a viver numa universalidade imposta por um poder, esse sim, idolatrado?
sábado, agosto 06, 2005
O fim de Portugal é universal II
Portugal transformou-se num sol, quente, coberto de fogo, vermelho e amarelo como as labaredas, cada vez menos verde como a sua bandeira. Não há que nos indignarmos, não existe surpresa suficiente para isso. Tudo isto é simples e cândida normalidade, a nossa banalidade, os nossos pés enterrados no quotidiano. Por isso, Portugal é uma estrela luminosa que consome os que cá vivem mas dá luz e vida a seres longínquos. Quem serão eles, visto que nós já sabemos quem somos?
quinta-feira, agosto 04, 2005
Vai parecendo que sempre existiu
Do acaso formou-se a vida e, com ela, a liberdade: o escape à contingência e à necessidade. Esta, se Deus não existiu, não sobreviveu também. Por isso, cada cruzamento foi uma confluência da qual, independente das suas causas, se formou a vontade humana. E podemos construir um destino? Julgo que sim. Mas de tectos baixos, rentes ao chão, numa sala onde rastejamos arrancando monumentalidades ao absurdo e gritando, todos os dias, que há um caminho. Este, à força de se traçar, vai parecendo que sempre existiu.
terça-feira, agosto 02, 2005
O homem do futuro VI
(e o universal?)
De facto, podemos vislumbrar um futuro em que um individualismo exacerbado faça voltear em seu torno uma idolatria pragmática: estritamente funcional de acordo com as necessidades da época e de cada indivíduo. Nesse sentido, será um Neo-Renascimento por também ser uma radicalização individualista da atenção ao Homem que o Renascimento original dedicou. Podemos ver aí a derradeira queda da crença numa verdade colectiva ou universal. Contudo, mesmo reconhecendo que o derrube da ousadia de ter uma visão universalista e metafísica da verdade é inevitável, o espaço colectivo de um acordo e diálogo - a existência de um sentido (consensual) universalista em vez de um fundamento universalista - continuará a ter lugar? Passaremos a viver sob uma lei minimalista, tipo liberal, como único contacto colectivo? Que construção mais que individual? Ou um controlo superior se encapotará de universalidade?
De facto, podemos vislumbrar um futuro em que um individualismo exacerbado faça voltear em seu torno uma idolatria pragmática: estritamente funcional de acordo com as necessidades da época e de cada indivíduo. Nesse sentido, será um Neo-Renascimento por também ser uma radicalização individualista da atenção ao Homem que o Renascimento original dedicou. Podemos ver aí a derradeira queda da crença numa verdade colectiva ou universal. Contudo, mesmo reconhecendo que o derrube da ousadia de ter uma visão universalista e metafísica da verdade é inevitável, o espaço colectivo de um acordo e diálogo - a existência de um sentido (consensual) universalista em vez de um fundamento universalista - continuará a ter lugar? Passaremos a viver sob uma lei minimalista, tipo liberal, como único contacto colectivo? Que construção mais que individual? Ou um controlo superior se encapotará de universalidade?
segunda-feira, agosto 01, 2005
Agosto
Sob a fixidez luminosa de um sol tórrido, os automóveis avançam em fila na direcção do mar. O descanso no horizonte alimenta a proficuidade do trabalho. A cidade esvazia-se, a praia enche-se: simples transferência de cenário.Com um pouco de normalidade, as mesmas pessoas cruzam-se nos mesmos lugares de sempre. O cérebro avança de férias, o corpo escurece e espera levar de volta o escalpe moreno do ócio – um escalonador social. Fui, vi, fiz, e tenho prazer. Se, por azar, um dia as nuvens nos estragam a praia, pavoneamo-nos no centro comercial, existe um em todo o lado. Os mapas repetem-se, o calor aumenta, o trabalho espera uma maciça recarga e o corpo ejacula.
terça-feira, julho 26, 2005
O fim de Portugal é universal
Vamos descobrindo um país feito de papel, mas bem pintado e colorido. Frágil como as florestas que ardem, porém escarlate e luminoso como o fogo. Tacteando este país, sentem-se nas mãos uma espécie de cinzas; lançamo-las, com as esperanças perdidas, sobre o seu corpo rectangular, deixando-as fugir nos braços do vento, para o mar, para o ocidente sem países. O oceano vem também para nos engolir e, para nos salvarmos, damos as unhas à Europa e deixamos a nação afogar-se. Assim, conservamos o mundo. Por isso, o fim de Portugal só pode ser o princípio do mundo. O fim dos países é o começo do cosmos. O optimismo é um estado de espírito do universal. O pessimismo, todavia, é demasiado português.
segunda-feira, julho 25, 2005
O homem do futuro IV
Como mudar já? Eis a pergunta verdadeiramente mais incómoda. Como? Provavelmente, já somos muito desse homem certo e veloz, e concerteza que ele está confortável. Por isso, talvez questionar em movimento, mas fora da certeza, seja já alguma coisa. Todavia, não satisfaz ficar pela pergunta, pela crítica, pela recusa, não é suficiente porque não reconstrói algo de novo, diferente, na direcção do melhor. E o que é o melhor? Coloca-se aqui o nosso maior problema. Qual é o projecto de substituição, a alternativa? Como se questiona: é uma recuperação da autenticidade, um regresso às origens, uma valorização da existência individual? Pois é... o quê? Voltar a trás simplesmente não existe. Começar já é a única possibilidade, e essa é, por agora, um aviso a nós e aos outros sobre a excessiva simplificação do Homem, exigindo-se que este não deixe de se reconhecer finito e, por isso e apesar de tudo, possível devaneio do futuro. Assim sendo, antes do até lá, pensemos agora e esperemos o reconhecimento das mãos evitando a reificação duma verdade impossível.
terça-feira, julho 19, 2005
Comparações
Se compararmos a cobertura noticiosa despendida sob os atentados de Londres e a realizada nos inúmeros atentados quantitativamente mais mortíferos em Bagdade, deparamos com uma assimetria na valorização e no choque ritualizado que só nos pode levar a pensar que o eurocentrismo permanece, um certo racismo sobrevive, e que a morte dos ricos parece despertar mais solidariedade que a dos pobres e andrajosos – como se causasse mais piedade ver a vasta acumulação material do ocidente ir existência fora com a facilidade de um botão do que a eliminação de indivíduos que pouco mais do que a roupa do corpo têm e assim - já desde sempre - parecem prontos à diluição. A proximidade, a identidade e o sucesso são a verdadeira medida do universalismo e da partilha da dor. O resto são notícias que apenas alimentam o estado de coisas, na medida em que esse estado é feito de nós e dos outros, do dentro e do fora, do ser e do não-ser.
sábado, julho 16, 2005
O homem do futuro II
(este futuro)
E a pura comunicação será o paradigma vigente; paradoxalmente, a sua negação, porque constante envio, fluxo permanente sem ponto de emissão ou de recepção, não-comunicado comunicado entre espaços improdutivos, tornado conteúdo e fim em si, movimento pelo movimento. Breton chama a atenção para essa utopia, em que tudo, sob a capa da transparência, se torna exterior, em que a interioridade é esquecida como quem nega toda a possibilidade do númeno ou mesmo do desconhecido, do profundo, a verdade transformada em movimento de a dizer, de dizer, sem nada que se diga. O homem do futuro, sim, é só futuro, é projecto em projecção, corrida sem descanso, plano sem motivo. O homem do futuro, sim, é preciso mudar já.
terça-feira, julho 12, 2005
Depois do éden
(este éden)
O pecado parece ter sido o motor da História, o impulso para que dois seres agarrassem a humanidade com ambas as mãos e pudessem infinitamente desobedecer a uma lei que os fixava eternamente a uma voz sem rosto. Os seres humanos buscaram um rosto, uma singularidade, um espaço de rugas, de tempo, onde lágrimas caídas revelaram um sentimento de si e de devir, onde o acontecimento deixou levemente a sua marca e a sua segurança - a sua prova de existência. Depois do paraíso perdido, o movimento ganho, a monumentalidade erguida, o toque inaugurado, os sentidos expandidos, um universo salvo por consciências famintas; enfim, um Deus vencido.
sexta-feira, julho 08, 2005
Londres
E se poucos soubessem? E se ninguém ouvisse falar deles? E se a bomba fosse apenas uma palavra que nos chegasse como identificação ou registo minimalista, sem imagem, sem sangue, sem expressão dantesca? E se o horror efectivo não contagiasse mais do que as vítimas de primeiro grau? E se o terrorista, aquele que quer provocar o assombro, agudizando ao limite a psicologia do medo, não tivesse voz, não tivesse meio, se a rede de comunicação o limitasse a uma conversa com o vizinho? E se as células terroristas, já sem centro, tivessem menos meios de propaganda, menos palavra para passar entre os átomos isolados que esperam activação e expansão? Qual o limite da liberdade de expressão? Qual o limite do relativismo e da liberdade de valores? Qual o limite de Deus? Qual o limite da vida humana? Sem mais: a vida humana.
segunda-feira, julho 04, 2005
Existe?
Uma das incapacidades do ser humano mais frustrantes é a de não lhe ser possível ver-se a si próprio de fora, sair de si, sem sair de todo, e ver-se a si mesmo sendo, em autêntica auto-exposição ontológica. Só assim, verdadeiramente, o positivismo sobreviveria. Mas não, este caiu sob o tropeção da inalienável subjectividade. Contudo, por vezes, pelo canto do olho, parece ser possível vislumbrarmos um pouco de nós, ainda que fugidio ou mesmo ilusório. Serve para nos reconhecermos em parte. Assim, a dada altura, ele deu por si a ser arrogante, diria até pretensioso, e pensou: e se sou sempre assim e disso não tenho consciência? Será que afinal não sou tão especial como pensava? Não, aparentemente não era; todavia, podia estar enganado. E, do mesmo modo que ninguém o avisava da sua arrogância, podia ser que ninguém descobrisse, como ele, a sua alta superioridade. Visto isto, o ser , quem sabe? Quem vê a confluência do real? Existe?
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