quarta-feira, outubro 26, 2005

Silêncio

Desconhecer não obriga à explicação, mas ao silêncio. Nele se recolhe o não-saber sábio, a douta ignorância, a mão que se estende mas não se fecha, os dedos que não apertam o escuro, deixando cair o presente aparente, que se esfuma como tempo, no tempo. Por isso, a certeza duma possibilidade, qualquer que seja, infinita. E mais, a perda das palavras absolutas, que desejam castelos de pedras, edifícios e fundos. Contudo, o ganho de todas as artes, das construções que respeitam o silêncio, porque o enchem de si próprio, colorido infixável, verdade inenarrável.

sábado, outubro 22, 2005

A luz e a casa

E o encontro estava previsto, por isso foi demasiado seguro, programado até ao tutano, até à respiração escondida por trás de todos os gestos, os quais, claro, não surpreenderam ninguém, os olhares ou as expectativas. Não houve impulso, queda ou sensação. A ciência descreveu a situação, matou-a de claridade, e cada pé soube demasiado o que fazer, o caminho e, principalmente, as paredes, brancas e luminosas. Por isso, um dia, resolveu fechar os olhos, abrir os braços e comer carne crua, até que um dia lhe dê de novo o sono de ter casa.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Os males da política

Como um político chega ao poder e como o mantém? A que critérios obedecem os mecanismos de selecção e de permanência? Parece que apenas aos económicos e aos partidários. Estes últimos afiguram-se mais valorizadores de indivíduos capazes de foçar no aparelhismo do que de pessoas possuidoras de competências políticas. Além disso, os partidos estão abertos à promiscuidade com os poderes económicos por via do seu financiamento. Quem recebe, tem que pagar, mais tarde ou mais cedo, a bem ou a mal. Por maior que fosse a quantia, deveria ser o Estado a financiar por completo as campanhas eleitorais, de modo a que cada governo eleito se sentisse em falta relativamente a todos nós mas a ninguém em particular. Assim, por um lado, o processo de progressão política não é meritocrático e, por outro, os deveres dos partidos não concernem somente aos eleitores. Portanto, julgo que valorizar os independentes e financiar na totalidade as campanhas poderia ser o começo de algumas das necessárias conversões dos males da política.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Experiência III

Por último, a certeza do reinício, um recomeço perpétuo no olhar estremunhado. Contudo, uma ténue diferença em cada passo desloca a recta aparente, e uma curva imperceptível forma o desenho rasteiro, ousado, de quem cria, sem o saber, o mundo dos próximos. Ignorados e ignorantes, os Homens planeiam a criação em minúsculas poiesis e um deus é puxado a ferros impondo ao universo um sentido magnifico. Mas, no canto do tudo, quem o deveras sabe, que consciência o salva, quem guarda o seu tamanho?

terça-feira, outubro 18, 2005

Experiência II

Em corrida, nada por mover - linha de todos os espaços em velocidade. Fricção. Nenhum espelho se fixa, nenhuma janela guarda uma paisagem. Muitas em seguimento. E um dia, no sopé ou na clareira, a vontade de dormir...

quinta-feira, outubro 13, 2005

A estátua que ri

E porque a felicidade é o objectivo, a sociedade procura reificá-la nas mais variadas formas: sexo, consumo, diversão, entre outras. O ideal, contudo, seria que ela emergisse espontanea e autenticamente com a configuração respectiva de cada sujeito vivente. Este objecto feliz não deixaria de ser condicionado socialmente, pois da sociedade também dependeria: somos animais sociais, além de todo o resto infinitamente indeterminável. Todavia, hoje, encruzilhamo-nos na passadeira das figuras impostas, e somos obrigados a adaptarmo-nos (porque disso depende o nosso estatuto social) aos estereotipos que a felicidade toma pela mão de quem predomina economicamente e tem acesso aos meios de produção cultural em grande massa. Assim, o carrossel não pára, nem o sorriso se descola. Daí que se compreenda que ela aparente estar sempre feliz: provavelmente, mente...

quarta-feira, outubro 12, 2005

Experiência

O encontro com frases curtas devolve-nos a simplicidade

e a eficácia:

o tempo aperta

sexta-feira, outubro 07, 2005

O famoso endinheirado

Se há exercício que, realizado de modo moderado mas certeiro, manifesta-se politicamente saudável, é o da desconfiança. É necessário duvidar, neste caso, das pessoas, questionando os seus motivos. Falo dos políticos. Ninguém luta desalmadamente por uma coisa se não precisar dela, por qualquer razão que seja. Daí as perguntas: o que faz correr o político? Porquê pôr em causa a sua própria intimidade, paz de espírito, nome e, muitas vezes, compostura cívica mínima? Várias conjecturas: 1) mudar o mundo; 2) ganhar dinheiro; 3) adquirir notoriedade; ou 4) massajar o ego. A primeira possibilidade, parece a melhor, mas a mais rara: ninguém o faria caindo mediaticamente na lama. Sendo esta queda tão vulgar, podemos depreender: a segunda, é realista; a terceira, também (estarei a ser precipitado?). De qualquer modo, a última, inevitavelmente, cabe-nos a todos; contudo, o mais ético seria fazê-lo através da primeira, recebendo os devidos agradecimentos e, quem sabe, uma estátua. Paradoxalmente, esta, pelas mãos do português, pode eternizar, nestas eleições, o famoso endinheirado.

terça-feira, outubro 04, 2005

A forma e as coisas

A irreversibilidade de um acto estrutura-se no tempo como um mostrengo - rocha marítima de todos os cabos intransponíveis. A sua eternidade enforma de granito as paredes por onde nossos braços roçam e para onde o nosso olhar não pode mover-se sem que se feche de maciço dentro de si. A inflexibilidade absoluta, a retaliação contínua, como a vingança, marcam infinitamente o futuro como se o passado não fosse mais que um lançamento em frente. Por isso o perdão, o lugar onde o tempo se torna forma e não recta. Por isso a arte, o acto que faz de cada coisa todas as coisas.

sábado, outubro 01, 2005

Profeta absoluto

Ou nenhuma delas (a felicidade e a verdade) existe como coisa a encontrar. E aqui defendo uma ideia radical de construção. Tudo se cria na direcção da nossa satisfação, a qual depende, sem dúvida, de condições éticas. Uma espécie de construtivismo pragmático-hedonista condicionado eticamente pela dimensão social do ser humano. A partir daqui, tudo é possível, desde que haja acordo e acção universal e futuramente aceitável no sentido em que preserve e satisfaça a humanidade, todos e cada um. Portanto, parece que a felicidade e a verdade são a mesma coisa, mas uma coisa endógena, imanente, e que permite, a partir de si, reter poieticamente na imanência a nobreza que parecia apenas apanágio da transcendência. Assim, o telos não se descobre, cria-se. Tocaremos no céu, mas porque ele nos sai dos dedos e não porque ele nos cobre.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Profeta nascente III

Concluindo, o fim mais satisfatório pode ser conhecido, mas o verdadeiro não. Isto porque avançamos numa dupla condição: caminhantes e ignorantes. Parece que, ou vivemos sobre a fixidez de uma crença que nos configura um telos, no qual depositamos o nosso sentido, e então acordamos conscientes (sabemos o para onde) mas numa provável ilusão metafísica, contudo, feliz; ou, radicalmente críticos, deixamos em branco o espaço do telos e escoamos a muita vontade de sentido para a parca capacidade de o receber de um quotidiano feito de curtos prazos (nenúfares sem margem), e então acordamos inconscientes (só sabemos que vamos) mas sem ilusões metafísicas, miopia angustiante e verosímil. Daí, duas últimas perguntas, e talvez as mais impossíveis: que valor maior, a felicidade ou a verdade? Ou será possível fazer coincidir os dois?

quinta-feira, setembro 29, 2005

Profeta nascente II

Depois de um frenético envolvimento no trabalho, este desaparece. E podemos perguntar: para que servia ele? Agora que se some, no seu vazio descobrimos o seu sentido: movimento de construção. Para quê? Para a sobrevivência económica? Sim, também. Mas não só, talvez igualmente para uma satisfação pessoal resultante de nos vermos capazes de produzir, fazer para os outros, compormos a chamada contribuição para a sociedade, a qual nos agraciará com uma plena integração, pela qual nos mexemos. E esta incorporação, tem valor porquê? Porque nos sentimos mais extensos, ligados a cada um dos indivíduos, ou porque adquirimos mais poder numa potenciação do próprio sobre os outros? Portanto, porque o valor é o da densidade e complexidade ou o da força e superioridade? Para escapar a estas opções aparentemente tão imanentistas, só uma transcendência. Mas a pergunta continua a ser dupla: trabalhamos para coincidirmos com uma lei ou destino ou para descobrirmos e revelarmos essa lei ou destino, ou, melhor, esse ser? Porquê, afinal? O movimento é para fora ou para dentro, para a epiderme ou para uma nuvem que agatanhamos? E qual o fim último deste movimento? Podemos continuar sem o conhecimento desse telos? Como acordar de manhã?

terça-feira, setembro 27, 2005

Profeta nascente

Acordar de manhã e ter um objectivo. Procurar concretizá-lo no quotidiano. Um fim dos de curto prazo. Destes se pintalga o dia a dia que nos mantém corredores. Mas qualquer coisa parece doer se espreitamos para lá desses pequenos chamarizes e não encontramos mais que o nada, um não-horizonte, um vazio, vácuo circular centrípeto. E depois, o corpo lentamente enrola-se sobre si e o seu si mesmo como que se consome na direcção de um centro claustrofóbico. Então, acordar de manhã e não ter um objectivo. Descobrir essa verdade . E saber, finalmente, qual o projecto: encontrar um objectivo para todos os tempos, para o total do sempre , e ver a monumentalidade emergir das mãos de um profeta nascente.

quinta-feira, setembro 15, 2005

A política e o lugar dos pés

Ser de esquerda ou de direita, por vezes, parece tão vazio e tendencioso como ser de um clube de futebol. Ser de direita implica, sempre, defender a administração Bush, a penalização do aborto, as privatizações, uma certa aproximação à igreja e uma sociedade de mercado liberalizado. Ser de esquerda, por sua vez, acarreta optar por posições contrárias: atacar a administração Bush, a penalização do aborto, as privatizações, as aproximações à igreja e o mercado aberto a todas as concorrências. Mas pergunta-se: um indivíduo que discorde por completo das medidas da administração Bush, seja a favor da penalização do aborto, católico e contra o mercado livre, poderá integrar-se por completo, sem dificuldades de comunicação, num dos opostos da barricada política? Não será a necessidade de cada indivíduo ter os dois pés num dos lados e, para o fixar ainda mais, de obedecer ao partido onde se sente representado efectivamente um dos grandes factores de ineficácia da política para resolver problemas que, longe de metafísicas utópicas, são, antes de mais, pragmáticos?

domingo, setembro 11, 2005

Intimidade III

Salientar uma data, riscar uma marca, deixar todos os anos um risco na areia da praia, sabendo que se deve repetí-la, anualmente, tal como as marés voltam, porque desaparece, tal como as construções arenosas. Assim, todos os anos, todos os dias, recordamos o que não pode acontecer e oferecemos beijos a quem esperamos no lado oposto do onze de Setembro, erguendo todas as possibilidades de futuro nos antípodas duma memória.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Intimidade II

(ou o hermetismo como comunicação)
Aproxima-se o onze de Setembro. Há quatro anos. Estranho momento, quase ficção. “Quase” porque o não foi, penetrou suas raízes no real e nele se confundiu e tornou. Esta antecipação surge por via do reconhecimento da viagem como possibilidade universalmente hermética mas particularmente comunicativa de oferecer um toque intimo num registo comum. Por isso, Nova Iorque - na direcção da qual uma ponte se forma -, cede a figuração de um rosto próximo a um outro continental que encontra na exterior efeméride de uma tragédia um motivo para textualizar a troca de interioridades que fazem o avesso da destruição e a promessa de criação do belo.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Intimidade

Escrever é textualizar um dizer que, em princípio e a maior parte das vezes, se destina a uma terceiro anónimo, um leitor ideal (um pouco como o descreve Umberto Eco) relativamente ao qual exercemos o esforço de codificação do nosso discurso procurando respeitar a sua hipotética descodificação. Contudo, por vezes, tanto para quem escreve como para quem lê, torna-se irresistível escrever pensando em alguém e lendo interpretando-se como destinatário do texto. Nestes casos, cria-se na massa anónima uma leve ponte de sentido que só dois reconhecem e procuram com o tempo transformar em casa - aquela que, segundo Ruy Belo, é a responsável pela criação da palavra intimidade.

sábado, setembro 03, 2005

Vergonha

Até poderia concordar com a guerra no Iraque, com a recusa em assinar o tratado de Quioto, com a liberalização da venda de armas, ou mesmo com a pena de morte. Poderia ser neo-conservador, liberal, achar belas e profundas as palavras de Bush, não resistir à sua expressividade invulgar, ou mesmo defender o estabelecimento de uma dinastia da sua família como governadora do mundo. Poderia. Mesmo assim, sentiria vergonha, sentiria sempre. Porque o poder americano perdeu-se no seu próprio poder, consumiu-se no império que deu ao mundo uma visão esgotada no lucro somente próprio. Deixou de ser esquecendo-se dos seus próprios pés de barro, dos corpos frágeis que alberga, da História que foi conquistando à água, que volta um dia, com as marés...

sexta-feira, setembro 02, 2005

Mais um exercício

Se eu falar só com palavras, sem querer dizer nada, será que ainda assim digo alguma coisa? É que hoje tendo com naturalidade para o exercício do vazio, um antigo hábito que amiúde me invade e me inscreve escrevente no delírio triunfante do sugar de conteúdos, artifícios que se largam aos cães que procuram sentido, e que mordem, bem sei, que também sou cão, é certo. Mas hoje manso e não quero nada. Melhor, quero o nada, que se deixa fingir como se existisse e não fosse mais um motivo para desenhar, em branco, toda uma razão de existir, um floreado cansado que descreve um cansaço sem esforço.

quinta-feira, setembro 01, 2005

O fazer do tempo

O tempo não nos larga, ainda que se perfile em frente. É massa de leveza, pesada quando a seguramos nas mãos, fugidia sempre que corremos para morder. Claro, o tempo volta; quando o não queremos presente, ele bate que bate na porta que tentamos fechar por trás das costas. Nada desaparece, e a construção rebola como um carrossel que nos vai lembrando de nós, lá atrás, quando um banco de baloiço nos bate no crânio que por vezes desejamos vazio. O tempo não tem desenho, símbolo verdadeiro. É um resto de tinta gatafunhada involuntariamente numa parede, cor que se acumula mais coloridamente que a primeira de todas, sem se deixar fixar numa, naquela que se diz, na que tem nome. O tempo não se nomeia. Por isso, não morre, permanece incógnito a nossos olhos, escondido nas tábuas da recordação, obsidiante, invulgar, eterno, interno, mesmo depois de nós.