sábado, julho 08, 2006

Questões não interrogativas

Primeiro que tudo, falamos de uma certa arte contemporânea como problema. Nisso ela interpela-nos. Contudo, mais do que isso, ela interpela-se, fala principalmente de si. Nesse acto, ela infringe-se, é negatividade sobre si própria, não suficientemente política, exteriorizada ou comprometida. Então a sua crítica torna-se conformada porque puro exercício de auto-reflexão. Por sua vez, aquela que não é crítica, está demasiado diluída no quotidiano, correspondendo à célebre premonição de uma estetização da vida, igualmente acomodada. Nisto, não é descabido perguntar se deve caber à arte algum papel minimamente revolucionário, espicaçante de mentalidades. Se sim, será importante perguntar também se o seu enrolamento não corresponderá à necessidade puramente social de o artista distinguir o seu estatuto através de uma produção simbólica hermética e profissional. Findando, há que esclarecer que, neste campo, todo o emprego do condicional é meramente reflexivo e, sempre, não performativo.

quinta-feira, julho 06, 2006

A curvatura do tempo

Estando em Sociedade, estamos em afirmação. Sim. Nem mais. Todos os lugares do mundo antes de nós – Natureza – deixaram de existir: agora, estão depois de nós, cheios do nosso toque, da nossa afirmação. Além disso, na própria Sociedade, por mais que nos demos a pequenas recusas, não nos é dado rejeitar nada em absoluto. A revolução como retorno ao zero é privilégio do esquecimento. Os humanos lembram. Assim, a negação é impossível. Não há nada que possamos declinar sem que em parte o aceitemos, ainda que inconscientemente. As estruturas afirmativas envolvem-nos, sustentam-nos os pés, alimentam-nos o "não" que gostaríamos de dar quando olhamos para o prato. No máximo, atingimos um "talvez", cuja coerência está não na recta mas na curva onde se demora o tempo depois de nós.

quarta-feira, julho 05, 2006

A velocidade do riso

Os momentos são velozes quando gostamos deles, e o mais certo é serem lentos quando os queremos fugidios. Assim, o tempo do nosso corpo demora-se na rugosidade das resistências encontradas na sucessão de quadros em catadupa que nos tocam em cada gesto; todavia, quando os obstáculos desaparecem, o mesmo tempo avança por si mesmo sugado pela superfície do riso que voa infinito. Por isso, a alegria é o instante que no momento de o ter já se sabe perdido, porque planante, inconsciente e infantil; mas desejado com as mesmas forças que em tristeza reconhecem a existência de tudo e a influência até do mais mínimo dos terrenos no mais ínfimo dos corpos, onde a eternidade vai cuspindo o monumental fogo que é preciso até para a mais pequena das gargalhadas.

sexta-feira, junho 30, 2006

Buracos

Venho por aqui tentar deixar buracos no chão, onde alguém, um dia, “agora”, caia e saiba que um outro chão se teceu paralelo ao dela, àquele onde ia normal num caminho dado, por cima, horizontal tecto do subterrâneo. Mas cavar custa. Ruminar precisa-se. Por isso, pensar é um trabalho de campo e de gado. No campo amanha-se a erva de que se alimenta o gado e por onde, passo a passo, pés de cimento devem cair bem fundo, perdidos, até onde as unhas alcançam, seguras e cegas. Contudo, neste gesto, “agora”, nada de novo se fez, apenas se gritou que se quer e se quis fazer o que agora se tenta. Mas nada verdadeiramente. Apenas a pretensão calorosa de que basta a voz da intenção para que a toupeira escave. Somos animais de superfície, corporalmente. O dogma está no corpo e amiúde resta-nos apenas a casinha fechada do grito. O mais que parece é que não há carne para a nudez nem palavra que perfure.

segunda-feira, junho 12, 2006

Sem números

Sem essencialismo, há o bem, o tender esforçadamente para uma afirmação positiva da vida, com todas as limitações negociadas que a convivência obriga, cuja figura sustenta a maior expansão possível de cada um. Contudo, esse bem não parece ser espontâneo, não aparenta nascer como impulso imediato, resulta antes, ele também, de uma negociação, desta feita com o próprio lançado ao outro, intersubjectivamente. Nisto, é a culpa, o remorso, a insidiosa falta relativamente ao humano, alojada na consciência como espelho formado pelas linhas da relação social, que impele cada um para a acção que garanta o espaço de vida alheia, sempre – claro! – porque este é a única possibilidade que desenha a amplitude vital de quem age. Todavia: a consciência disto não deve ser permanente, a sua imersão é necessária para que a economia se limite aos números e não se imiscua nas relações humanas.

quinta-feira, junho 08, 2006

A casa IV

P: Sem resposta, sabe das casas, e então sabe das ruas. A terra, para onde há-de ir, está coberta por cidades, já não se vê. Mas na urbe encontra uma figura, em cada caminho entre paredes, em cada palavra entre frases, em cada letra entre enigmas. Um dia, abre a gaveta, fechado ou aberto dentro dela.

RC: Dentro da gaveta está a palavra. Ela é a resposta. A palavra define. Seja em que dialecto for, ela define. Ela é o veículo identitário. Ela é que transmite. Ela tem uma verdade dentro de si. Logo ele só é e os outros só são porque ela existe e porque foi inventada por um de nós.

quinta-feira, junho 01, 2006

A casa III

P: E as paredes caiem sobre ele, leves, mas enlaçadas. Prova na boca o sabor frio, descritivo, dos códigos indecifráveis, que parecem dizer-se, ser uma verdade, decifráveis. Se antes não tinha, agora tem um edifício. Mas não corre. Vela atentamente o aparecer. Regista o incontornável para um dia o contornar. E encontrar-se-á depois das casas?

RC: As letras, as cores, edifícios, perseguem os seus sonhos, como um pesadelo em que é perseguido por tais figuras, distorces, assemelhando-se a sombras, mas definidas. Flutuam, dançam, encantam, mas revelam?

quarta-feira, maio 31, 2006

A Casa II

P: Sem nudez, entrou numa casa de cores. Em cada parede estava escrito um enigma. Cada um parecido com letras, aparentando frases, insinuando dizeres. Fez um esforço de leitura e queimou os olhos na dureza do edifício, apertou nas mãos uma gaveta no sopé de cada muro. E chorou por si. Não sabe.

RC: A tristeza do não saber rapidamente se transforma em determinação. Quer saber o que aquilo quer dizer. Não pela possível informação, mas sim pela sede que tem no corpo, pela necessidade de desenigmar. Provar. Provar.

quarta-feira, maio 24, 2006

A Casa I

P: Cobriu o corpo de roupa e saiu. Já não o tinha. Depois de fazer do corpo o seu corpo – já não o mesmo, mas outro que possuía –, revestiu-o de um nome que os outros lhe deram e deixou-o delinear-se pelas ruas onde o chamavam. Enquanto ele, o próprio, sem nome ou identidade, ficou-se pela caixa fechada da surdez.

RC: Não. Não é amnésia. Não. Não trocou de identidade. Não. Não se apoderou de um corpo. Apenas descobriu que o que é só o é porque os outros existem. Existem antes dele e depois dele. Nada é sua posse. Nem o corpo, nem o nome. Nem a Deus pertence. Só à terra depois de morrer.

sexta-feira, maio 19, 2006

Ora

Por vezes, em momentos, ora longos, ora curtos, por razões, ora objectivas, ora subjectivas, assola-nos um sentimento que fecha um cortinado sobre aquilo que para nós se revestia dum sentido positivo, desabando, ora repentina, ora paulatinamente, todo um texto que nos fazia avançar com vitalidade. Nesses tempos, mesmo que uma distância inteligente nos garanta a relatividade dos traços e todas as oportunidades de sentido, algo insiste em nos prender a um presente cerrado e estranhamente obscuro. Nisto, a vida parece, pois, um leque que se fecha e abre ao sabor das possibilidades de caminho consciente, e a força de cada um mede-se pela capacidade de crer que a hipótese, que a razão nos diz existir, pode persistir por trás do escuro que amiúde nos cerca.

domingo, maio 14, 2006

Lágrimas de Crocodilo II

RC: A alegria…a alegria é valorizada pela passagem da dor ou da tristeza. A alegria, essa, é vida. A dor, essa, é vida. A tristeza, essa, é vida. Mas nunca saberemos como sabe o doce se não tivermos saboreado o amargo. A vida é dualidade, em tudo. Para a tudo dar sentido.

P: De uma espécie de ritmo emocional vamos talhando as escolhas tidas, que, conscientes ou não do dualismo inevitável, não deixam de procurar o pólo positivo como se fosse possível vivê-lo em permanência. E a tristeza, essa, dá-nos a possibilidade de sorrirmos, sem o sabermos e sem a querermos.

RC: Porque até o crocodilo chora.

Lágrimas de Crocodilo I

P: A tristeza existe. Muito bem. E vem-nos dizer alguma coisa? Isto é, partindo do princípio de que tudo guarda em si um sentido (começando, assim, por rejeitar o absurdo), qual o significado da tristeza?

RC: A tristeza é como a dor. Elas fazem-nos sentir vivos. São elas que, infelizmente ou felizmente, escavam a abertura do caminho para a liberdade. Sendo assim, a liberdade que provém da tristeza, dói, mas é o corredor da “salvação”.

P: Mas será que encontramos mais vida na dor do que na alegria? Será preciso um sofrimento do tipo cristão para aceder ao significado da vida, ou seja, à sua vivência livre? Se assim for, a tristeza e a dor são necessárias como impulso? E então, a alegria, o que é?

quinta-feira, maio 11, 2006

Debruçar

Por um lado, somos responsáveis pelo nosso corpo, a posteriori; por outro, resultamos dele, a priori. E o estranho está nesta distinção entre nós e ele, como se ele fosse outro e nós o verdadeiro. Mas, dogmaticamente, algo nos separa, uma espécie de sensibilidade analítica remete-nos para um estado que o vê noutro lugar, onde é movido a partir do olhar como um objecto manipulável. A posteriori, esforçamo-nos por transformar a sua alteridade no próximo da mesmidade que nós cremos ser. A priori, se o vemos – e só se o vemos – a sua diferença é irremediável e o que nós somos tem que pousar sobre ele. E aqui, neste debruçar, talvez tenha começado o erro do Ocidente, mal ele nasceu. Talvez a distinção analítica e o espelho separem-nos de nós mesmos, diferenciando ao infinito o gesto que em vez de se ver a si mesmo talvez devesse ver o horizonte onde a questão não coloca o ego nem este rasga quando vê.

sexta-feira, maio 05, 2006

As noites

Rimos, decerto. Mas insinua-se uma recusa sorridente depois do riso: a negação do absurdo. Antes do plástico e de um esforço que não seria mais do que irónico, pode haver um avanço que nos fecha os olhos para um não-lugar sem visão, mas onde no escuro do impossível desenhamos informalmente o sentido, o roubo ao absurdo e a entrega sobre ele do vento do próprio. É um acto de fé, inevitavelmente. Mas o único possível, aquele que salva o consciente, porque neste o absurdo é o nada e então a consequência é o nada e o acto é o nada e o é maciço. Se não estou nesta imobilidade derretida sobre um vazio, é porque, talvez, no fundo, já agarre um futuro, ainda que invisível. Saltando, é uma ponte na manhã que se estende sobre a tarde que molda na noite o sono fantasista do inventor, o qual, de tanto talhar um lugar, um dia já está dentro dele, sorrindo acima do real que outro antes de si forjou.

segunda-feira, maio 01, 2006

Rouquidão II

P: Ouvindo a superfície fónica do grito, a não palavra, a sua impossibilidade revela-se como força motriz, como vida. A linguagem morreu. Hoje, de manhã, neste novo dia de todos os dias, é o silêncio perfurante que conquista cada castelo antigamente erguido por palavras e sons sem vida. Hoje, a linguagem faz jus à vida, calando-se. E nisto, és tu, e só tu, quem fala.

RC: Logo, o silêncio serve de fertilizante, alimento da terra, para fazer crescer vida onde nela se enterra. O silêncio, o grito calado, permite o lugar a tudo o que o não tinha. Lugar para coisas, antes reprimidas, serem ditas. Tudo pode ser, tudo pode existir, tudo pode ser ‘dito’ desde que seja nesse grito calado.

P: Sim, é isso que digo. Mas não deixo de me questionar: se em cada subjectividade há uma determinação de carácter, portanto, um algo dito ou não dito e que, quando não dito, é a verdade escondida por trás das múltiplas interpretações possíveis, qual o valor do silêncio e do grito, não esconderão eles o autêntico em vez de o revelarem?

RC: Revelá-los seria uma nudez total. Quem quer desnudar-se perante todos? Para isso, prefiro o grito. Mesmo que ninguém ouça.

sábado, abril 29, 2006

Rouquidão I

P: Não sabe, mas vai. E quer outras palavras junto àquele corpo, as que o digam como único, diferente dos termos de sempre, impossivelmente singulares. Mas nada diz. O silêncio é escuro, é murro. Apenas o corpo emerge, talvez luz, talvez carícia, som. E, subitamente, o medo, o não saber total, um rodopio em torno do fogo em que cai a noite escolhida sem vontade, na corrida. Queda interminável, qualquer coisa na vida que se escreve trágica, irresistível e mortal; conscientemente dolorosa, mas inevitável. E aquele que não se resigna agarra no mar como se fosse terra, no fundo-superfície como se fosse meio. E diz: grita.

RC: Grito surdo, obsceno até. Perfura até ao centro da terra. Mas ninguém ouve, ninguém sabe. Intraduzível. Só quem grita este grito de tal proporção, mas insonoro, sente, mas não expande. A expansão é transmissão. Gritar é um acto de liberdade. Logo grita. Até alguém ouvir e partilhar dessa emoção.

quarta-feira, abril 19, 2006

Corpo opaco

Nasceu acreditando na ciência, quase num estado de certeza pré-crença que lhe fazia a carne, um antes inquestionável que lhe constituía o depois na forma de um para sempre: há um conhecimento que resolve tudo, em que algo dissolve perpetuamente qualquer coisa que se desajeite. E nisto cresceu. Um dia, morreu. Não ele, mas alguém, e a estranheza chegou em forma de incerteza – fio fino de equilibrista pousando por baixo dos pés de quem anda. Algo que se acentuou nas sequências posteriores irmãs desse facto. Daí que, quando antes olhava o corpo como matéria inesgotável e reformulável pelas mãos dos então adultos, passou, no mesmo olhar, a ver decrepitude em potência, resignação em esperança e a dúvida como filha de um prenhe diagnóstico. Agora, um médico não é uma eficiência funcional que apenas actualiza soluções num corpo de erros, é um malabarista que procura ler em sinais corporais e palavras biográficas causas movediças num corpo opaco e outro, mesmo para o próprio.

quinta-feira, abril 13, 2006

Coincidência e destino

O cruzamento de duas linhas de acção de um modo imprevisível (mas não necessariamente improferido) e com resultados de consentaneidade que fazem refluir ambas numa só, solucionando problemáticas ou homologando diferenças, costuma designar-se de coincidência ou destino. Entre um e outro jogam-se todas as questões da racionalidade v irracionalidade, imanência v transcendência e ciência v superstição. Sendo assim, a coincidência existe entre dois fenómenos com sequências causais definíveis que, por acaso, se intersectam ao nível do próximo ou aproximável e, por princípio, num campo falsificável (no sentido popperiano do termo). O destino, por seu turno, acontece entre dois fenómenos que, por mais longínquos um do outro que pareçam, estão ligados desde sempre e tal apenas se torna visível no momento em que se mostram em relação, vindos de um estado exterior e condicionados à impossibilidade de falsificação. Visto isto, um problema reside no facto de, à coincidência, faltar sentido para lá da dimensão descritiva e, ao destino, real aquém do imaginado. E assim, mais uma vez pelo ent(r)e, pedimos o meio termo?

terça-feira, abril 11, 2006

A possibilidade como saber

A hipocrisia pode definir-se como uma dissociação entre o fazer e o saber. Quando o que se faz não coincide com o que se sabe lamina-se a necessária consequência entre a teoria e a prática, sem a qual a primeira perde o seu sentido e se diminui ao nível do labirinto escolástico e da pretensão intelectual impotente. Contudo, por mais condenável que seja, encontramo-nos, hoje, talvez mais do que nunca, condenados a ela, consciente ou inconscientemente. Num mundo de sistemas envolventes constituídos por complexidades cujo conhecimento nos parece impossível, que agem sobre nós com intuitos meramente económicos, ocultando as estratégias que encetam por trás de um marketing altamente eficaz e praticando acções que, por via da necessidade de sobrevivência própria, colocam em causa a sobrevivência alheia, não só física como ética e cultural, ao consumirmos um produto ou um serviço oferecido por estes sistemas contribuímos facilmente para o incremento de fazeres do mundo com os quais o nosso saber discorda. Claro que fazê-lo sabendo ou não sabendo difere. Todavia, quem poderá dizer, com toda a certeza, que é impossível saber mais, e que, de facto, não se adivinha? É que parece que a possibilidade é já um saber suficiente.

sexta-feira, abril 07, 2006

A decisão

A decisão é, para todos os ventos e paragens onde se aninha em foguete, derradeira, total e determinante de todo um percurso a recolher. Antes dela: ela; mas doutro, ou nossa noutro estado. Agora, nela, quando a tomamos na ponta do indicador, interrompemos o que aí está, em andamento, para que nasça, rosto desmascarado, a manta de dominós que escolhemos desenlaçar sobre os lugares que nos escorrem, a partir do que somos e queremos ser, para sempre e até que se cruze e recruze. E em cada encruzilhada pintalgada no espaço do tempo que não dá tréguas à ausência, podemos concorrer para o despoletar de um movimento positivo, gerador de poiesis, de olhares tocantes e dadores, ou, pelo contrário, podemos afogar cada possibilidade em nadas e percorrer com despeito cínico tudo o que desistimos de viver. Em ambos os casos, a decisão. Nesta, toda uma religião, segundo a segundo, e do Homem.