sábado, setembro 15, 2007

A mão invisível

O liberalismo é uma tentação. A livre concorrência privada favorece, em termos gerais, a qualidade e a quantidade dos produtos, pelo menos no que diz respeito à sua relação com o preço. Uma equação que parece simples: a competição potencia os mais fortes garantindo a prevalência da sobrevivência da espécie que o bom do consumo permite – associação natural ao darwinismo. Contudo, se considerarmos que qualquer coisa de ético se criou com o humano, devemos reparar nos espaços negros deste tabuleiro: os cativeiros do trabalhador. Estando inserido no sistema que compete, a sua força de trabalho é aproveitada no seu máximo de tolerância a um baixo ordenado, a que corresponderá um maior lucro da empresa, nunca distribuído verdadeiramente, antes capitalizado em novos investimentos ou absorvido pelo proprietário. Por isso, o cidadão, na sua dupla condição de consumidor/trabalhador, vê retirar-se-lhe com uma mão o que se lhe dá com a outra. A tal que é invisível, decerto.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Os livros

E apanho a bola, daqui, já um pouco tarde, mas dentro do tempo. Livros da minha vida, claro, é impossível, a vida é demasiado densa e curta para tantas importâncias. Mas arranjo um critério. Escolho-os pela novidade que trouxeram ao momento em que os li, como um impulso. Cinco livros impulsionadores: 1) O Discurso do Método, de Descartes. Com dezassete anos, deparei-me com a existência de qualquer coisa mais certa que poderia ser descoberta com simples procedimentos mentais. Fascinante! 2) Ulisses, James Joyce. A escrita como exercício estético de captação das rugosidades da vida sob a égide duma aliança entre a forma e o conteúdo – quase tudo escapou ao entendimento efectivo. Pretensão! 3) Húmus, Raul Brandão. Já depois da queda de todas as certezas, o encontro com a ruminação profunda escondida debaixo do silêncio dos dias. Comichão! 4) Metamorfose, Kafka. Na realidade, o corpo como matéria inelutável de proximidade, a pessoa esmagada pelo alter-organismo imposto. Porra! 5) Poesia, de Jorge de Sena. A lucidez como a única forma de verdade compatível com a paz de espírito. Comecemos! Chuto agora para a Petunia, o Bruno, o Pedro, o Impensado e a Alexandra.

sábado, agosto 25, 2007

Eduardo Prado Coelho (1944 – 2007)

A minha relação pessoal com Eduardo Prado Coelho não existia. Mas ele parecia, aparecia, como construção dos seus textos, quotidianamente perto. A princípio, provocando uma admiração solene. No fim, uma certa irritação, mas sempre desculpável, como acontece com os amigos - imaginável neste caso. Falava demasiado da sua vida, defendia escandalosamente os próximos e até se debruçava de modo hermenêutico sobre novelas. Mas estava lá, presente, demasiado presente, descobri hoje. Senti o seu falecimento como altamente inoportuno, como se descobrisse a morte como realidade geral e isso me ferisse estranhamente. Além disso, surpreendi-me com a ausência de banalidade nessa reacção. Afinal de contas, era apenas mais um desconhecido mediático que morria. Mas não, pelos vistos não, ele era qualquer coisa mais, talvez mais humana, cheia dos bons defeitos do humano que agora já não irritam.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Torre Bela

Um documento cujo traçado narrativo é uma autêntica fenomenologia das emoções e das razões presentes na vivência ideológica e social do comunismo. Primeiro, a crença e, a seu lado, a emoção, quase lacrimosa, duma esperança amalgamada em povo, em que se perspectiva no outro a possibilidade dele ser um mesmo de boa fé pronto a uma realidade paradisíaca: tomando a igualdade pelo bom. Segundo, o esforço de organização e racionalização do trabalho e da distribuição dos bens de modo a garantir a desejada equidade que ponha a salvo do conflito e da injustiça a utopia programada. Terceiro, o desencontro interno e entre si dos dois pontos anteriores: a solidariedade resvala em pequenos actos de cobiça e inveja, a equidade depara-se com as naturais dificuldades dum cálculo distributivo necessariamente complexo e a vontade e a razão não encontram entre si o espaço de encaixe. Enfim, os Homens não mereceram as grandes ideias e acabaram todos na prisão.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Os homens que a usam

Uma das discussões mais recorrentes em vários campos das ciências sociais e humanas e no âmbito filosófico é a que procura determinar o benefício ou prejuízo da tecnologia. Por um lado, afirma-se que esta colocou o humano num novo patamar funcional, dando-lhe potenciais que antes apenas podiam ser sonhados e que agora se concretizam. Por outro, defende-se que, em vez de libertar, a tecnologia condicionou a acção de modo a que o homem se tornasse seu servo em lugar de senhor. Contudo, talvez seja possível superar este antagonismo deixando de olhar para a tecnologia e passando a fixar o ser humano. Provavelmente, todos os defeitos são deste. O que na realidade a tecnologia fez foi agigantar os caracteres definidores da humanidade, ora aumentando os bons, ora os maus. Assim, quando se quer libertar, a tecnologia liberta, quando se procura submeter, alguém é submetido, não pela tecnologia, mas pelos homens que a usam e provocam as suas consequências mais distantes.

domingo, agosto 05, 2007

Amigos

Com eles, reencontramo-nos, simplesmente porque antes talvez nos tenhamos esquecido de nós, de quem somos, dispersos por qualquer coisa que sonhamos. Por isso, aguardamo-nos, prontos a nos reconhecermos em cada novo cruzamento, onde ficou plantado um ser que forjámos nos seus olhos com a verdade que a autenticidade, gaveta de defeitos, nos proporcionou, crente na possibilidade de chegarmos como pessoas. E assim, neles, vemos num espelho a nossa figura desenhada com a mesma tinta com que esboçámos os seus rostos, para que também eles vissem mais de si próprios quando nos vêem. Nisto, não há deveras complexidade que esconda a simplicidade com que o mundo pode, em alguns dias, ser um pouco mais profundo, ainda que tecido de ideias errantes.

sexta-feira, julho 27, 2007

Um barulho

Por vezes, não há nada a dizer, a que corresponde um estado de espírito difuso, enevoado e marcado por indeterminações atómicas. E as palavras são mãos que agarram, que castigam os estilhaços com uma suposta certeza fechada e frontal. Contudo, por vezes, não seguram coisa alguma, apenas inventam uma disposição que toma o lugar da face que esconde uma espécie de tormento, dum redemoinho nervoso de indefinição, duma ausência do carácter idêntico que se encontra entre os elementos variados que compõem o próprio. Isto – repete-se – como espécie e não como lugar. Portanto, uma feira e uma rosca, uma venda enroscada e uma parede de pano, um cantor surdo rodeado de aplausos, um motor, um barulho e, apesar de tudo, o gostar de dizer.

terça-feira, julho 24, 2007

A verdade e a mentira

Por várias razões, aproximamo-nos duma sociedade onde se cruzam e aprofundam dados sobre a vida dos cidadãos com vista ao controlo e redução de actos ilícitos. Nisto, defende-se: se as pessoas não têm nada a esconder, não devem sentir-se incomodadas com a perscrutação. Quem não deve, não teme. Então, em busca da sociedade perfeita, exige-se a perfeição cujo critério de emergência resultou duma súmula de esquemas éticos acumulados durante séculos. Contudo, outra questão se coloca: e a privacidade, onde fica? Claro, precisamos dela, da sua individualidade. Por isso, devemos dispensar os olhos dos outros sobre nós. Isto porque ser indivíduo subentende a ocultação, quiçá o ilícito e decerto a mentira (supremo mal dum contemporâneo que se eiva de verdades científicas). O mais certo é que a falsidade existe e dela depende o espaço do singular, pois quer-se o acto de esconder para o de revelar e universalizar - lugar do social. Portanto, não há nada a fazer senão aceitar o a-legal como condição perfeita dum eu que também se forma a partir de dentro e não somente de fora.

sexta-feira, julho 13, 2007

A moeda

Crer na humanidade é um esforço, um precipício onde a vontade sulca a queda num movimento para cima, ao ar. E por vezes respira-se, com uma inspiração que coloca em cada coisa uma intenção que nos agrada, uma felicidade pequenina mas possível, um futuro tecido de caminhadas boémias. E tudo parece abraçar-se em rede, a tal ponto que basta uma suave aparição do inverso, duma amargura há muito escondida, duma má causalidade a enegrecer todas as consequências, para que sejamos a precipitação a que a gravidade nos obriga e todo o espaço desdobrado no tempo nos surja tragicamente fatídico, cínico e mortal. Aí, só podemos esperar a sorte do rebolar da moeda ou a força do ímpeto duma acção. Isto, porque a fé é dura e não é para todos.

terça-feira, julho 10, 2007

A percepção

A percepção é um mundo. Assim, convencidos do Outono por umas meras folhas caídas, deixamos o real encher-se desse convencimento a partir de todas as raízes onde as nossas verdades se fundam. Por isso, por vezes, escolhemos não olhar, recusando uma qualquer rugosidade ontológica que venha alterar o nosso universo seguro. Nesse acto, aparentemente cobarde, não evitamos a verdade, apenas permanecemos numa outra mais agradável e previsível. Neste estilhaço de dimensões, ou de mundos, assumimos psicologicamente uma pós-modernidade eivada do relativismo perspectivista que admite um lado e o seu contrário, mas em faces diferentes e intocáveis. Quando isto acontece, escolhemos a felicidade como conduta e condenamos a ciência ao pragmatismo hedonista e múltiplo.

sábado, julho 07, 2007

Literatura e estados de espírito

A tristeza dá-se mais ao literário do que a alegria. É mais fácil de poetar, pois aparenta maior profundidade, fixa-se numa atracção suplicante que não deixa de cativar uma natural propensão do humano para o sentir alheio. A linguagem também parece colaborar nesse registo, pois na insinuação da angústia qualquer coisa de inefável rodeia o discurso assim adensado pelo que diz não poder dizer. Contudo, na verdade, tal como Nietzsche afirma, a alegria é bem mais profunda que a tristeza. Mais indizível também e, claro, dificilmente poetável. Tem uma brancura que passa por superficialidade, uma força que simula euforia e uma consumação que parece satisfação. Mas não, tudo isso é vitalidade transcendente, dádiva sem desperdício, distância sem sono e possibilidade sem abnegação. E isso, quando se diz literariamente, precisa duma arte que mostre que algo se oculta quando aparece, em lugar duma que esconda com o rabo de fora o que se julga desejável.

sexta-feira, junho 22, 2007

Raciocínio inconsciente

Desconheço se existe ou não investigação na área. De qualquer modo, sem referências de autor, julgo possível conceber a existência dum tipo de raciocínio que, em lugar de se passar no espaço clássico do consciente, actue no heterodoxo inconsciente. O que explicaria fenómenos como a intuição ou a profecia. Tanto uma como outra seriam o resultado consciente dum processo racional inconsciente, não já exclusivamente a-racional, e concluído com uma pequena ponta consciente. O resto, a deliberação, realizar-se-ia de modo involuntário, usando como matéria o conteúdo cerebral e passando-se num ápice, automaticamente. Assim, quando a minha intuição me diz que determinada pessoa não é de confiança, é possível que seja porque recebi suficientes sinais disso (do seu aspecto, por exemplo) que, sem que eu dê por isso, são calculados inconscientemente e expelidos como resultado sem processo aparente. Por seu turno, em termos hipotéticos, consigo prever um acontecimento porque a minha experiência recolheu dados bastantes para estabelecer uma probabilidade, sem, contudo, eu perceber como. Assim, a sustentar acontecimentos intuitivos ou proféticos estariam processos racionais bem longe da emocionalidade espiritualista onde normalmente se incluem a intuição e a profecia.

sexta-feira, junho 15, 2007

Geração R

De facto, aparentamos ser a geração dos dois r’s: rasca e dos recibos verdes. Filhos dos pais da revolução, esta estirpe – na qual me incluo, portanto – nasceu em democracia, viveu sem inimigos visíveis, sofreu uma educação laxista e emprega-se como pode em lugares abertos a uma flexibilidade muito pouco segura. Os pais não. Nasceram em ditadura, sentem-se vencedores sobre um inimigo visível, tiveram uma educação autoritária e ocupam para sempre os lugares inflexíveis a quem não tem experiência ou cunha adquirida. Nisto há uma grande incompreensão mútua. Mas os pais devem alguma compreensão aos filhos. Os seus desafios são maiores, porque mais psicóticos: o sistema perdeu mão e rosto, a cultura ganhou variedade e labirintismo e os que agora têm que oferecer ao mundo aquilo que são – os que entram na casa dos trinta – são obrigados a muito mais linhas indeterminadas – a mais arte, portanto – do que a rectas da ciência óbvia e segura dos pais, que um dia decidiram fazer um futuro para os filhos, mas ficaram com ele.

quarta-feira, junho 06, 2007

A ausência e o impulso

É costume apontar-se a inteligência como a grande causa da civilização e duma hipotética superioridade do ser humano em relação aos outros seres vivos. Contudo, ela parece mais um vidro seco que arrepanha, uma chama de pedra que limpa o escuro do sovaco ou uma aranha branca cuja teia apenas sabe captar regularidades no caos aparente. Metáforas à parte, a inteligência é uma chata, no sentido literal: achatada – porque, só, alarga-se sem subir. O que efectivamente avança, julgo, levando-a com ele, é o impulso imediato à ausência que, tanto biológica como culturalmente, constitui o humano que, assim, é angustiado na paragem, ainda que luminosamente inteligente. A inteligência serve, pois. Mas sem uma espécie de vontade (à Schopenhauer), talvez a inteligência fosse cega (como os conceitos sem os sentidos, para Kant) e inútil. Talvez um Deus imóvel que tudo visse aborrecido na sua monótona felicidade.

sábado, maio 26, 2007

Mil palavras

Acordando um pensamento com um exemplo, repara-se que uma dada extensão de texto ocupa menos espaço na memória do computador do que uma imagem de extensão semelhante. A analogia insurge-se quando se despoleta um aforismo invertido sobre o poder criador do verbo: uma imagem ocupa o mesmo que mil palavras, mas mil palavras dizem mais do que uma imagem. Pois, considerando as potencialidades sinápticas do espírito, o discurso parece dinamizar mais esse evento do que a imagem, predominantemente imposta como estrutura – apesar de, no caso do cinema, se apresentar como movimento externo, não se dá a tantas ligações internas. Deve-se ter em conta, portanto, o que a palavra deixa à imaginação. Esta é por natureza estilhaço mental e mais dependente daquela para criar imagens internas do que de qualqer imagem externa. Claro que a comparação da mente com a informática é redutora para o humano, mas neste caso serve. Isto porque a polissemia e a economia do verbo são tão contundentemente potentes que, até na concretização tecnológica da humanidade, não a largam.

terça-feira, maio 22, 2007

Truques civilizacionais

A civilização inutilizou certas funcionalidades do nosso corpo. E a paz, tendências dos nossos povos. Porque o corpo constituiu-se, em maioria temporal, como organismo activo fisicamente na luta pela sobrevivência, a substituição dos instrumentos musculares deste esforço por instrumentos mentais fez com que a propensão para o movimento não encontrasse concretização. Curiosamente, isso prejudicou o corpo. Daí a simulação: o exercício físico – o qual não passa dum engano sobre um sistema de forças que se acha funcionalmente activo, mantendo-se, todavia, na prática inútil do ginásio. A paz, essa, ao substituir a guerra em algumas sociedades, deu lugar a outra simulação: a do desporto – intuito guerreiro amansado no jogo, também eivado de dimensões corporais. Assim, desviámos os instintos mais primários na direcção da acção destituída dos objectivos dela decorrentes, antes consequência da necessidade de manter a natureza iludida, isto é, funcional.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os bons pais

Ter filhos é bom, por definição vital. Não há dúvida. Reproduz a espécie, uma parte do mesmo e a possibilidade de novidade absoluta (no sentido poiético). E é nesta que surge o busílis. Se o pai recente não produziu até à data do nascimento a originalidade em potência que a sua vida continha, muito mais difícil se torna vir um dia a fazê-lo. Um filho exige um empenho aglutinador e – mais importante – invade o progenitor orgulhoso com uma consolação que compensa a ambição poiética, restando parco espaço para a manifestação do próprio como singularidade que dá ao mundo qualquer coisa diferencial. Quando o filho nasce, o pai transfere para ele a responsabilidade de concretizar essa hipótese. E enquanto a cadeia não se quebra ou termina numa espécie de pico, vive-se no círculo sobrevivente de manutenção orgânica dum povo ensimesmado na sua natureza. Todavia, não se pode pôr de parte a possibilidade das duas rectas se cruzarem: a da procriação e a da criação. Nesse caso, o esforço é mais belo – conjectura que, portanto, não inclui pais indiferentes.

quarta-feira, abril 25, 2007

25 de Abril

Será que o fenómeno de extrema-direita, plasmado arruaceiramente nos skinheads, tem a relevância que os media lhe têm dado? Sim e não. Sim, porque existe. Não, porque não existe assim tanto. Contudo, a sua notícia chama-nos a atenção para uma realidade específica do nosso tempo: a aliança entre a política, a estética, a tecnologia e a violência. Curiosamente, o elo mais fraco parece ser o político. Particularizando nos skinheads, o impulso aparenta ser do foro emocional-colectivo, onde a ordem harmoniosa das massas destaca uma estética do fascinante, o poder superlativo da tecnologia uma possibilidade de domínio e a capacidade de destruição a hipótese da eliminação e do zero reconstrutivo. O modo pseudo-racional do político é uma mera plataforma discursiva, em si eivada de incoerências e puros erros científicos, como sejam as ideias de superioridade racial e de ética no autoritarismo. Portanto, mais um braço do irracional corporal contemporâneo, tanto mais perigoso quanto emocional, por natureza impossível de contra-argumentar.

terça-feira, abril 17, 2007

A doença

Do ponto de vista físico, a doença é uma disfunção. Esta consiste na incapacidade endógena ou exógena do corpo responder ao que o meio lhe exige para se manter estável na exploração sobrevivente. Por outro lado, em termos psicológicos, na doença física o indivíduo acede a outra dimensão, onde a disfunção acontecida é de outro teor. Aqui ele sente adoecer-lhe qualquer coisa para lá da sua vontade, noutro lugar da sua extensão, noutra esfera da sua pessoalidade. É uma máquina qualquer que nunca fala de si ou levanta o braço como existente que vem perturbar a voz e a face do ser autónomo e livre. Mas pouco, claro. As camadas culturais que se sobrepuseram ao corpo na constituição da personalidade histórica do humano inabilitaram-no para estas inaptidões. Quando emergem do afundar das faculdades pragmáticas, expulsam o elemento social para longe da vista do que há a fazer. A disfunção física é também social e a mente - teimosa - insiste na sua vocação para a liberdade.

sexta-feira, abril 06, 2007

Ciência pessoal

O indivíduo apercebeu-se do seu estado paranóico. E como? Deixou de se achar um Deus e procurou as incoerências e os desajustes das suas proposições labirínticas. Foi como se reproduzisse individualmente o que se passou historicamente com o nascimento da ciência. As leituras do real dogmáticas, nascidas duma auto-confiança ilimitada e dum racionalismo solipsístico, foram substituídas pela análise empírica e o cálculo matemático assentes no reconhecimento do erro e do provisório na verdade. Assim, debruçou-se sobre si mesmo, partindo do princípio saudável de que pode estar enganado (porque acertar algumas vezes não lhe permite acertar sempre), e evitou conclusões sobre o que não analisou e, principalmente, sobre o que é impossível analisar. A partir daí dormiu melhor e aceitou chamar sábia a ignorância.