sexta-feira, novembro 19, 2004

Insónias

Será que as pessoas antigamente tinham insónias? Julgo que não. Imagino outros tempos como se uma certa tranquilidade rústica os dominasse, como se a calma fosse o estado natural da realidade psíquica dos indivíduos, numa osmose total com o exterior, igualmente lento e meticulosamente cadenciado: cada gota caindo em cada segundo com a precisão do milímetro no metro adivinhado… lentamente....
É da ausência de hoje que falo, da presença frenética do nada, da circulação contínua de uma roda dentada que rola por cima dos corpos, despertando neles desejo e dor, busca e queda, paradoxo masoquista demasiado subterrâneo para olvidar o sadismo do observador consternado.
Visto isto, tenho decidido conformar-me. Porque não? O mundo é como é e não dormir é mau, faz mal à saúde. Por isso, aceito a felicidade, esta felicidade, a da leveza absoluta e veloz. A partir daqui decerto dormirei. Nada fará parar a minha infinita melancolia, o meu pesado tédio, e hei-de cair na cama de olhos fechados por toneladas de velocidade e sonhos brancos e sem sobressaltos. Hei-de ter uma vida plana e um pijama. Este é o meu projecto: acalmar-me e ter sono.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Baloiço sobre o mar de Magalhães

A casa, o lugar onde podemos dormir, onde ele se deita. Estendido na cama, flui, estagnado corporalmente, mas dinâmico cosmológicamente, criado pelo Universo a partir de seus braços abertos, de seu corpo bailante no espaço sideral, o peito oferecido a deus, aquele que esquece. Todas as estrelas confluem no olho absolutizante, galáxias gravitam em torno do dedo que aponta um caminho, e tudo na mesma escapa, foge por entre o que foi dito, lá onde tudo está por dizer. Nada se totaliza. No entanto, o universo está lá, e com ele o absurdo, o silêncio ensurdecedor, o ruído absoluto. Esperemos que seja uma congeminação consciente, porque se o muro é parede infinitamente maciça, mais vale ser folha que Homem. No entanto, podemos pensá-lo, dizê-lo. Assim está todo o Universo dentro do Homem, e ele quase morre; mas o Universo salva-se, não se deixa morrer no ser humano, apenas lhe impõe o fio da navalha, o toque finito no infinito, a quase morte, a dor de ter consciência, o baloiço sobre o mar de Magalhães.

quinta-feira, julho 08, 2004

A identidade no tempo ou como a foto antiga mente

Nunca nos despedimos definitivamente do passado, pois um zero é zero, ou seja, nada, e nunca se começa do nada; isto porque a vida é tudo, é caminhar como uma jibóia que permanentemente se alimenta e cresce até ao fim sem recomeço. Neste fim – a morte – a memória é dos outros e do animal apenas resta um rosto ou uma máscara. O que vai dar ao mesmo, visto que a interioridade profunda se esfuma no impalpável fluxo do não-reificável.
Se assim for, a máscara é o rosto possível e a polissemia (a máscara-rosto de mil luzes coloridas, tantas quantas as perspectivas) a multiplicidade de identidades minhas que encarnam na vivência dos outros (esses que erguem a minha identidade depois da minha morte; cada um a sua, note-se).
No fundo, a identidade pessoal e o sentido que a mim atribuo no meu íntimo morrem comigo, e o sentido externo, o visível, e por isso sobrevivente e verdadeiro, está no Outro, sempre no Outro, na medida em que é nele que eu me torno dizível e com alguma permanência (a continuidade fixável e palpável necessária à identidade que sobrevive à minha finitude). A verdadeira identidade pessoal é inevitavelmente finita e só vive enquanto recomeço e de um modo intransmissível; no fim, sobrevive apenas um sentido heterogéneo, uma hetero-identidade, não já a minha, mas a única possível, que é apenas provavelmente finita – não de um modo irremediável, portanto.
Daí a aporia: a minha identidade (possível, exterior e apenas provavelmente finita) só sobrevive sem mim, todavia já não é a identidade entendida enquanto representação de um ser palpável e limitável na sua definição e vivência, mas um sentido que de mim emana e que eu não controlo minimamente, uma identidade que se configura como representação de mim nos outros.
Concluindo: a identidade existe, na medida em que digo eu e os outros dizem tu; mas não existem rochas na alma humana; é na finitude que se configura a identidade pessoal, interior; mas é na permanência (apenas provavelmente finita) que se concretiza a identidade como sentido concreto e transmissível, e esta vive no Outro.

Portanto, cuidado com as cartas que envias, levam um rosto que não conheces por inteiro.

domingo, julho 04, 2004

Curto comentário a O Homem-Deus ou O sentido da vida, Luc Ferry

A queda da transcendência não significou o seu desaparecimento, mas antes o seu deslocamento para o homem, o Homem-Deus. De facto, com a desconstrução das religiões e da crença em Deus, a transcendência, algo imanente ao homem, não foi varrida positivamente do nosso ser. Ela manifesta-se no próprio Homem, na sua infinitização como incogniscível, sacralizado a partir da sua condição única. A morte de Deus não transformou os Homens em animais, mas antes em novos deuses, não no sentido de todo-poderosos, mas no de intocáveis, únicos e insubstituíveis. As próprias doutrinas materialistas têm uma dimensão adventícia, o que as coloca no registo onto-teológico - a promessa de um devir de certo modo transcendente.
O amor moderno como metamorfização institucionalizada do sentido comum e divino em exclusividade para o mais próximo é um bom exemplo. Outro é o da proliferação das organizações não governamentais (ONG’s,) em que o pendor da acção, com todas as críticas que se lhes possa fazer, se focaliza no humano enquanto humano, independentemente da sua nacionalidade, raça ou religião.
Apesar de se ter perdido uma certa confiança natural em relação à morte – possibilitada pela crença na vida eterna que as religiões fundamentavam –, além da hegemonia de uma certa cultura do corpo exageradamente hedonista e de um individualismo socialmente esquizofrénico, o ser-humano encontra em si um reduto de transcendência que nenhum positivismo conseguiu eliminar, uma sacralização do outro, o qual devo respeitar como tal e proteger como se me abrigasse a mim próprio. O sentido deixou de vir de cima, de uma autoridade teológica, agora desconstruída pela ciência, e passou a ser procurado no próprio Homem, em mim e no próximo, onde a abertura se revela infinita e onde a verificabilidade não passa de uma ingenuidade.

sexta-feira, maio 28, 2004

Voltar lentamente a este espaço

Procuro tactear este lugar, reconhecer-lhe os cantos, mover-me no seu interior com a mesma confiança de um cego na sua casa de há anos. Voltarei sempre que puder dizer alguma coisa, algo que aproxime as paredes do horizonte e expanda o meu olhar para lá das minhas mãos já habituadas a um ambiente que hoje desconheço.

quinta-feira, setembro 04, 2003

Até um dia

Talvez este pequeno espaço esteja condenado a desaparecer. A dificuldade em encontrar tempo para o actualizar é cada vez maior. Procuro essa clareira onde o movimento neste habitat se desenrola. Se o não encontrar, até um dia.

sábado, agosto 09, 2003

Pequeno Comentário a Amor, Poesia, Sabedoria de Edgar Morin

Obra que reflecte sobre uma dualidade fundamental no ser-humano: por um lado a razão, o método, a técnica, a prosa, o programável e fixo; por outro a loucura, o sentimento, o devaneio, a poesia, a abertura ao novo e à fluidez da vida. O Homem não é somente sapiens, é também demens; ou seja, é um ser de extremidades em diálogo, não podendo prescindir de nenhum dos pólos que o estruturam e movimentam (algo que Miguel de Unamuno explora de um modo impetuoso na sua obra Do Sentimento Trágico da Vida).
Morin atende à dimensão mágica, imaginativa e poética do ser-humano. Esta consola-o do seu quotidiano repetitivo e prosaico e, mais do que consolar, eleva-o para novos patamares criativos, verdadeiros produtores do novo. Qualquer dos lados necessita do outro. A partir do contraste aprecia-se e valoriza-se o sumo da vida - a infelicidade isola a felicidade como desejo. O amor como mito real, a poesia como campo desdobrante e criador e a sabedoria como reflexão holística consciente do seu próprio limite, são pois aspectos essenciais ao Homem - aquele que encontra na demência da Razão em diálogo com a razão da Demência o seu ser que está (fixação racional) sempre porvir (abertura poética).
Livro que, na hegemonia técnica de hoje, mostra que o que se sente é tão humanamente importante como o que se calcula, mas tendo a vantagem de ser a abertura do tempo e a possibilidade do novo.

Espero que o amor nos leve juntos em criação de mundos.

quarta-feira, julho 30, 2003

Apresentação a posteriori

É inevitável, tenho que me pronunciar sobre a blogoesfera. É inevitável porque de facto o tentei evitar, esforcei-me deveras. Essa tentativa tornou-se infrutífera. Era marcada pelo desejo de manter-me fiel àquilo que me levou a criar este blog, mas, visto que me é impossível e até indesejável negar o espaço onde estou inserido, sou impelido para este texto, ultrapassando (confesso) o preconceito inicial que me prendia à ideia que predefiniu este blog: um espaço público onde podia libertar os meus textos do isolamento das gavetas informáticas, às quais apenas eu tinha acesso, onde definhavam significados fixos às minhas leituras solitárias, marcadas pelo limite referencial do autor. Não deixando o espírito inicial, rompo agora com a auto-censura que me proibia de ter um discurso que estabelecesse pontes com o fenómeno onde este blog se enquadra.
Tomei conhecimento do que é um blog através de um texto de Pacheco Pereira no Público. De imediato criei este blog e fui aqui despejando textos a meu belo prazer, sem obrigatoriedade diária, concentrado no que escrevia e sem outra intenção que não fosse lançar textos ao mar, esperando algum retorno de quem os lia. Assim permaneci durante todo este tempo, até que decidi navegar por outros blogues e conhecer o que por aí­ se escrevia. Espanto! Não encontrei (daqueles que li) nenhum que fosse do mesmo teor que este, verificando que a maior parte se fazia de comentários a actualidades, de textos ao sabor do momento e de muitos diálogos inter-blogues, polémicas internas à blogoesfera inclusive. A surpresa não foi perante o mau, mas perante o diferente do esperado. Como é óbvio, de entre todos os blogues, alguns se destacaram como muito bons e outros como menos bons, havendo alguns verdadeiramente intragáveis. Apercebi-me assim que os meus textos estavam completamente isolados, sem qualquer tipo de inter-textualidade no interior da blogoesfera, o que não é necessariamente mau, mas que acaba por apartar ainda mais este blog, pois a referência a outros blogues acaba por chamar a atenção também para o remetente, fazendo com que o blog que comenta seja comentado e assim a sua existência publicitada. Não me parece que essa divulgação mútua seja incorrecta (embora por vezes se criem círculos demasiado restritos), ela permite uma navegação interessante entre pontos de vista em diálogo. Mas, com efeito, por ignorância, fiquei bastante surpreendido perante o mundo que me escapava, estando eu no seu interior.
De qualquer modo, vou continuar fiel à intenção que me levou a criar este espaço, mas vou também estar mais atento ao que se passa à minha volta, visto que uma publicação deste género vive muito do diálogo entre pares.
Como o título do texto indica, este post foi uma espécie de apresentação atrasada, configurando as possibilidades que este blog explora: textos diversos, tendencialmente literários e filosóficos;mas também, a partir de agora, como hipótese, será dada uma maior atenção à blogoesfera.
Inseri-me assim na comunidade, o que implicou referi-la, (re)anunciá-la, nomeá-la, ser também um seu autor, no modo divino do verbo criador.

sábado, julho 19, 2003

Monumentalidade II

De facto, vamos vivendo. Podemos considerar isto um facto, mas este facto não chega para se abarcar como facto, por mais paradoxal que pareça.

A vida.

Como olhar a vida? Como vê-la? Como observar algo em relação ao qual não posso ser exterior? Uma velha questão que nos enreda na circularidade. O que não é necessariamente mau, mas algo com que temos que lidar, por sermos nós isso que em nós se quer dizer. Queremos sempre dizer-nos, isso nos faz poder ser no que vamos fazendo, dizendo-fazendo ( mais uma circularidade, ou unidade, irredutível).
Portanto não posso dizer a minha vida tendo como contraponto outra coisa. Qualquer coisa está inevitavelmente dentro da minha vida, é na minha vida. Por isso é inviável ver na morte o contrário da vida, supondo que a morte é nada e a vida tudo. Da morte apenas sei o que do perecimento dos outros me é dado observar: o seu carácter inânime, imóvel, silencioso, objectivável, um ausência total de interioridade, autonomia e interacção, um progressivo degradar físico; em suma, um não-estar-a-ser-como-todo, como unidade e continuidade (segundo Miguel de Unamuno, as duas condições necessárias para um indivíduo ser pessoa, o que pode faltar a muitos seres vivos). Mas, à excepção dessas pequenas pistas, eu não sei, autenticamente, o que é a morte; e supor que é o nada adianta-me muito pouco, porque a mim, vivo - tudo - não me é permitido pensar o nada; ao querer apreendê-lo como algo esbarro sempre na impossibilidade de ele ser algo, ele é a absoluta ausência de tudo, e esta frase não chega para dizê-lo, porque ele nem isto pode ser, ele nada pode ser, nem mesmo a negação de tudo, esta negação traz em si uma estrutura que é já em si algo.

Portanto: vida. E é tudo.

Se cada uma das nossas vidas é tudo elas são absolutamente monumentais, únicas e de uma imensidão que é (um metáfora) mais que um universo inteiro, pois o universo existe na medida em que o vivo, ele é na minha vida, é também a minha vida, está na minha vida. Pode parecer que estou a cair no erro de fechar tudo no sujeito, quase num sujeito moderno, dito dominador, um indivíduo ao modo do sujeito de Fichte, absoluto; mas aqui o sentido é outro.
Sem dúvida que não tenho um domí­nio absoluto sobre mim, a minha racionalidade não abarca todos as dimensões da existência, o mundo não é necessariamente lógico ou completamente previsível, não sou o criador do mundo ou a condição única da sua existência, os aprioris kantianos são mais categoris da linguagem que da razão, a própria linguagem parece que não me pertence e é provável que eu deva, naquilo que sou, muito mais a ela do que ela a mim. Há uma antecedência de mundo relativamente a mim que me impede de ser Senhor deste mundo; e de mim, como o mostra Freud. Há uma expressão muito feliz no que concerne a esta questão: estou lançado no mundo - daí a minha condição fáctica, a impossibilidade de me distanciar de mim e do mundo para observar neutramente; quando quero falar do mundo e, por exemplo, da linguagem já estou demasiado no seu interior para os poder ver isolados no ser ser, apontar-lhes o dedo e reconhecer todos os seus contornos - eu também sou um contorno do mundo e da linguagem. É Heidegger quem trata estas questões. Consequentemente eu não ponho o mundo onde ele está, eu já estou no mundo e é, por assim dizer, dentro dele que eu sempre me movo. Deste modo eu não sou qualquer tipo de Senhor Universo ou Homem Deus, mas um ser por natureza heterogéneo e múltiplo, sem deixar de me edificar em unidade e continuidade; no sentido em que, ao mesmo tempo, estou no mundo e sou o mundo, estou na linguagem e sou a linguagem. Assim, sendo certo que me construo, não é menos correcto dizer que sou construído.
A monumentalidade da vida não contradiz estas conclusões, visto que ela dá conta da minha história pessoal, da narração que posso fazer de mim e da que os outros de mim fazem; esta última escapa-me muitas vezes, mas não deixo de procurar mover-me no seu interior. Esta história tem invariavelmente um princípio e um fim. Os dois nadas que a balizam e o seu lugar único no tempo e no espaço monumentalizam-na como excepção do ponto de vista histórico e como único absoluto do ponto de vista pessoal; único absoluto porque nem como única oportunidade pode ser vista, pois não é uma escolha; eu já estou sempre na vida, ela é o meu absoluto porque nela tudo cabe. Assim, tendo em conta o não domínio absoluto sobre mim e o mundo, uma certa heterogeneidade do meu ser, que não deixa de procurar constituir-se em homogeneidade (o que é a condição de eu poder ser pessoa) e de esta busca pela unidade e presentificação ser o que me faz ser - sendo o seu alcance infinito - não deixo de ser um corpo que nasce e morre. É a assumpção dessa minha condição inexorável que é essencial para um abraço verdadeiro à vida, para que ela não se transforme num jogo inócuo, ainda mais trágico que o nada porque a inconsciência e a ausência de sentido; no fundo, a bestialidade.
Do ponto de vista ético esta monumentalidade de cada um não deve ser um imposição ao outro, é antes já marcada por este. É perante mim e o outro (e eu já passo pelo outro) que tenho a responsabilidade de não ser indiferente a este único absoluto que me constitui e à História pessoal em que se move e à universal em que participa.
Se esta perspectiva é correcta, o gesto banal, a futilidade, a inconsciência da finitude, em suma, o desperdício da acção em projectos cuja consequência não se deixa escrever sem vergonha ou hibridez na retrospectiva da vida num suposto leito da morte são verdadeiramente trágicos, um esbanjamento incalculável.
Monumentalizar a vida não é fácil; nem sei até que ponto, no mundo de hoje (sem qualquer nostalgia por ontens que desconheço), esta auto-imposição da condição humana é viável como extremo vivencial; mas ao menos a consciência dessa responsabilidade é-o, o que certamente melhoraria o mundo em que vivemos, devendo para tal começar por uma mudança em nós mesmos e, antes de mais, em mim próprio.

domingo, julho 06, 2003

Monumentalidade I

Portanto, estamos todos de partida, em andamento, em constante passagem, em movimento. Mas não parece... Em movimento realmente parece que estamos todos, mas conscientes da passagem - sem falsos moralismos - não é patente que estejamos.

A morte.

Não, não desejo explorar qualquer espécie de estética do mórbido ou do tipo belo horrível. Não se assustem. Pensemos juntos, estamos no mesmo barco. Não tenho a pretensão de vos ver de fora, a partir de qualquer patamar pseudo-meta; antes procuro quebrar o tabu, a denegação da finitude - patologia ou infantilidade (essa sim, mórbida) da nossa contemporaneidade, a busca incessante pelo objecto que se interpõe entre nós e nós próprios, a nossa autenticidade, heideggerianamente falando, os movimentos e projectos que se sustentam em linha, cuja consequência é um envio ad infinitum de coisa em coisa, de utilidade em utilidade, puro envio sem fim, ausente de reflexão ou de partido pela finitude, continuando assim num registo heideggeriano. Partido pela finitude significa aqui agir de acordo com essa condiçãoo inexorável do ser-humano que é a morte; ou seja, fazer de cada gesto um movimento consciente da história que em mim realizo, história essa projectada em função da minha efemeridade. Ter consciência da minha fragilidade e finitude é transformar cada acto da minha vida em monumentalidade, emergindo a partir de dois nadas (antes e depois da vida) uma história que deve tirar a máxima singularidade do seu carácter único, logo potencialmente nobre. Nobre no sentido de construtivo, novo, livre e justo. Construir é erguer, ligar, estabelecer, alicerçar a vida em princípios e projectos que permitam o abrigo e a vivência, a clareza do autêntico, no sentido, não do instinto primário, mas da frontalidade, do face-a-face. Novo, porque esta construção, sendo minha, sendo eu também a minha situação, como diria Ortega, é singular, única no espaço e no tempo; por isso, em vez de me colar a modelos, devo antes criá-los, modelos flexíveis e aptos ao outro, a se transmutarem nele e tolerantes em relação ao seu possível declínio no futuro. Isto na base de liberdade, responsável como é óbvio, de me fazer com o que já sou, fazer algo do que fizeram de mim, como diria Sartre; configurar-me no meu espaço e tempo únicos obriga a que eu deveras o possa fazer, a que tenha acesso a todas as minhas possibilidades. Mas esta construção própria, única, provisória e aberta às suas próprias possibilidades, deve também estar aberta às possibilidades dos outros, aos seus modo de ser; porque eu não sou um ser isolado e faço-me me relação com o outro, toda a minha construção é feita também nesse outro que tenho que abrigar como hóspede, mas também como companheiro de labor, esse outro que me antecede, como diria Lévinas, e esse outro que devo ouvir e com quem devo dialogar, como diria Gadamer.
Tudo isto tem a fintude como horizonte e pano de fundo, não como limite que abisma a minha subjectividade, mas como limite que me define, configura e me obriga perante mim e os outros. De certo modo, um dever de ser. Eu devo ser. Mesmo que a morte me provoque medo, terror do nada, agir com ela em vida, consciente dela, é verdadeiramente viver, algo muito mais vitalista que a constante corrida pelo fútil, pelo corpo eternamente jovem, pelos hábitos estandardizados na plasticidade do sorriso branco e fixo, de que a publicidade é sem dúvida um modelo e um reflexo.
Nada do que digo é novo ou revolucioná¡rio, é simplesmente natural, consequente e óbvio; mas o esquecimento e a alienação preponderam. Não pretendo impor uma moral (longe disso), oferecer dogmas autoritários ou enrijecer as mentes com proposições eternas - sem dúvida que o tempo é mudança; mas há falsas mudanças, muito pouco emancipadoras, velocidades que não passam da prioridade dada à máquina, ao mecanismo, em que o homem se torna um produto da tecnologia, em vez desta servir para erguer o sonho e realizar a condição utópica do ser humano. A máquina já trabalha sozinha e nós vamos enrolados entra as suas roldanas, de sorriso posto e prontos para uma velhice deprimente, porque o antípoda daquilo que valorizamos: o eternamente jovem, o imortal.

domingo, junho 29, 2003

Memória

A memória contém-me, estrutura-me, é-me; mas além de corpo é estilhaço, caos em confluência num ponto fluido, cósmico, estendido, pronto ao magnânimo, mas também a perder-se. Nela posso ser rio, oceano, lugar do encontro e do rosto, mas também areia que escorre numa clepsidra cuja base é um deserto desconhecido; por vezes surge como imprevisto, vida sempre renovada pelo passado, clepsidra invertida, que não cabe na parte superior de mim, outras vezes desaparece para sempre nas areias que o tempo leva, clpesidra fixa do esquecimento, verticalidade perene.
Templo do tempo, na memória escorro, idolatro o passado e imagino o futuro com esse ídolo projectado. Neste nó está o ritual do presente, no fundo inapreensível, porque sempre atrasado ou adiantado face ao já.
O toque salva o instante, que nos dá esse presente, de novo perdido com a mesma imediatidade com que o imediato nos foi dado. O tacto do mundo, o estar nesse mundo, um estar-em como sensação, é onde nos é garantido o presente, mesmo que o desconheçamos; mas de resto - no tempo - vivemos em constante vai-e-vem entre o recordado e o projectado, entre o passado e o futuro, um só que é muitos em conflito com tendência ao um, caos enrolando em cosmos; unidade sempre inalcançável, mas cuja busca é a condição dos muitos, da diferença, do tempo, da vida. Porque o tempo é a abertura em si, a multiplicação de coisas e eventos, de encontros e desencontros, possibilidade de todas as possibilidades, de todas as impossibilidades e da alteridade absoluta.
Assim o tempo serve a memória, serve-nos, não como vida indexada ao livro das certezas ou como entidade, mas como reticência de todos os livros e, principalmente, espaço de todos os movimentos do corpo, somente escritos anos depois de vividos, já não tão vividos. Vida que escorre por dizer, imanência onde há sentido ainda não dito, mas que a memória nos vai trazendo e nós vamos recolhendo, para que o sentido um dia se encontre com o instante - o dia impossível do Deus que não existe.

segunda-feira, junho 23, 2003

Lugar e tempo II

O espaço coloca coisas entre nós e o tempo - essa irreferencibialidade absoluta. Todos nós, mesmo que o não saibamos, partimos todos os dias à caça desse tempo jamais visitado, tentando sempre evitar o objecto coisicista, o muro que nos tapa o horizonte. A ironia mascara por fim a ausência primordial. De qualquer modo, temos como primavera da existência o risco sublime do erro, essa condição do acontecimento e do ser. Afinal, onde nos podemos mover. Onde, a partir da clareira intocada, isolada pela sombra dos enganos,luz imprevista, tudo pode fazer sentido. Aí o tempo espera o gesto certeiro de um caminho.

domingo, junho 22, 2003

Lugar e tempo I

Lugar. O primeiro gesto tempo. Tempo movimento de Aristóteles. Gostaria de captar a deslocação precisa, o segundo do milímetro, e aí ficar imóvel, com o movimento por dentro e o tempo por fora, fixo, para que o pudesse observar, torneá-lo, tal qual um general medindo um mancebo. Como se o tempo fosse movimento permito-me esta mesura. Como pará-lo, fixar-me neste outro lugar, invenção, relógio? Contamos em função do Sol, em volta do qual, segundo dizem, rodamos; mas, segundo vejo, é ele que volteia em torno de nós, em torno de mim, segundo vejo. Então páro e nada pára, ando e tudo muda. Estou, eis a conclusão contrária ao verificado. Nada se pode fixar. Nada te perguntarei S. Agostinho.