sábado, novembro 29, 2008

O extraordinário

O indivíduo tem interesses, e um deles pode ser pelo extraordinário, não no sentido de o alcançar pelo seu próprio esforço, mas em termos de ser nele descoberto pelos outros, os quais, por finalmente o olharem como deve ser, poderão revelar ao mundo as faculdades únicas que desde sempre em si próprio intuiu mas que, por vicissitudes da comunicação, nunca demonstrou.
Este animalzinho ególatra pode estar mais ou menos adormecido em qualquer um de nós; contudo, por vezes, revela-se ao consciente e raramente ao público. É como que uma reminiscência permanente da fase infantil em que a criança se julga o centro do mundo, um palco interior alimentado por um certo solipsismo a que todos estamos, de certo modo, condenados - vivemos invariavelmente dentro das nossas cabeças, o que nos faz ter uma mínima dúvida razoável em relação à existência total dos outros ou, pelo menos, no que diz respeito às suas características; por isso, nunca podemos colocar completamente de parte a hipótese do mundo ser uma encenação montada para nós, para nos alegrar, nos testar e nos idolatrar, como, bem no fundo, queremos saber que merecemos.
Estando este figurão guardado no nosso stock de personalidades elegíveis, é talvez dos menos usados abertamente, apesar de secretamente acarinhado. Por exemplo, é ele quem é mobilizado numa entrevista lisonjeira, na recepção dum elogio inesperado ou quando se é apresentado a um público admirador. Momentos não acessíveis a todos, mas que em alguns são bastante comuns. O que dá a estes a oportunidade de deixar viver este ser mais do que acontece aos outros. Portanto, é também uma questão de pertinência. Se esta personagem quentinha, sorridente e falsamente modesta (para fingir que não está presente, caso contrário seria eliminada – a sua evidência é ofensiva e, portanto, auto-destrutiva) toma conta do todo da pessoa, esta esvazia-se de humanidade e transforma-se num receptor oco e ávido do louvor, caindo quase sempre em paranóia.
Neste modo de ser radical, mais ou menos evidente, real ou detentor de poder efectivo, o sujeito move-se sob o critério da sua narrativa e não tanto da sua autenticidade. Hoje, poderíamos projectar essa diegese no género documentário. O caso seria o da vigilante concentração do ego em causa nos caracteres deste tipo de filme, o que exigiria a escolha dos amigos certos para relatarem as forças e fraquezas importantes (necessárias para o realismo), dos momentos reveláveis a um público curioso e das entrelinhas benévolas quando o real fosse duro. A vida teria de adquirir força centrípeta na direcção deste fio imagético onde, perante a banalidade espectadora de sofá, a genialidade se mostraria com humildades entremeadas. Assim, os célebres 15 minutos de fama - neste caso, 1h de documentário - oferecidos como mote duma vivência seriam como côdeas de pão dadas a um peixinho submerso. Quando viesse à superfície recolher alimento, veria o sol.

quinta-feira, novembro 06, 2008

A força dos dias

Temos poucas coisas nas mãos, apesar do fervilhar de notícias enquadráveis numa História Universal. O dia-a-dia mostra-se irredutível. Parece existir alguma coisa que o segura, um estruturalismo qualquer, uma rede abstracta. Somos mais fiéis ao quotidiano do que a uma ideologia utópica. A economia enerva, é um facto, faz-nos sentir no limite; mas, depois, tudo acaba bem, num Natal ou num Verão, e não ligamos. Aceitamos isto porque nos alimenta o monstro sonolento. Ao contrário, a verdadeira tragédia parece estar na intimidade ou na multidão, duas formas quentes de ser humano, onde este se pode sentir extremo e concreto, único ou total, com dramaturgias menos duras. O dia-a-dia, esse, é o relógio antigo que a minha avó tem na sala, nunca pára, está sempre lá e bate as horas pontualmente, indiferente às palavras épicas de Obama.

sábado, julho 19, 2008

Ingenuidades e o mundo automóvel

Ao longo da vida podem existir realidades com as quais contactamos todos os dias de forma banal, mas, de facto, indirecta, o que nos faz não ter acesso à natureza das mesmas, pois são daquelas realidades que só experimentando se conhecem. Não falo de drogas, não. Falo do automóvel.
É verdade, só recentemente adquiri a carta e o veículo. E algo mudou. A minha realidade continua a ser a mesma, é certo. Já antes me deparava com automóveis e era por eles transportado. Mas não me integrava verdadeiramente na rede afectiva, funcional e simbólica que constitui a população dos veículos a motor. A nível afectivo, lembro-me de não perceber, por exemplo, a razão dos condutores se transformarem, vociferando selvaticamente quando na condição de peões eram normais cavalheiros educados. Hoje, compreendo. Há na condução um imediato perigo permanente, além dum esforço da sua previsão e do seu acautelamento. Assim, o instinto de sobrevivência mais primário do automobilista empolga as defesas e retrocede o super-ego para a hegemonia do id, embora oportunamente utilizado pelo primeiro (Freud a mais?). Outro aspecto que destaco é o cuidado que os indivíduos revelam pelo automóvel. Antes julgava essa atitude excessiva e pedante (qual o problema dum risco, o carro anda, não anda?). Hoje julgo que, apesar de nalguns casos existir eventualmente um amor verdadeiro, grande parte das vezes esse cuidado está na razão directa do esforço económico exigido pela posse do objecto. Quanto mais custa iniciar e manter a propriedade, maior a histeria da cautela.
Em termos funcionais é todo um mundo novo. Evidentemente, que também o peão coloca em prática competências quando se desloca na rua. Contudo, o condutor pratica competências muito menos próximas do natural (conceito complicado, eu sei), mais elaboradas, precisas, construídas e resultantes dum objecto tecnológico e da rede que o envolve a um alto nível de condicionamento (menos gestos possíveis e mais gestos necessários). Portanto, exige-se-lhe um maior e mais específico complexo de funcionalidades.
Por fim, do ponto de vista simbólico, o condutor integra-se num sistema de códigos a que o peão está menos obrigado (basta considerar a quase ausência de contra-ordenações para o peão). Há um emaranhado de interpretações que se acrescenta ao complexo cultural do cidadão e ao natural do Homem. Exige-se-lhe que permaneça em mais um patamar de leitura – um esforço extra.
Portanto, esta rede enquadra intensivamente o referido Homem na civilização. E mais, aproxima o humano dum conjunto tecno-civilizacional determinante a um nível que antes, ignorante, nunca imaginei. Coisas óbvias, talvez, mas imperceptíveis para quem não mexe.

sexta-feira, junho 06, 2008

Défice temporal

Se entendermos o tempo como unidade económica, podemos partir do princípio que o tempo que despendemos a produzir tem como objectivo dividendos temporais não produtivos mas compensadores. Portanto, quando trabalhamos, temos como fito não trabalhar, esse é, por assim dizer, o objectivo do trabalho: sustentar tempo de prazer, em que se ocupa o corpo e a mente em actividades sociais, culturais, existenciais, subjectivas ou outras.
Sendo assim, hoje em dia, temos um claro défice de tempo não produtivo. Perdemos o lucro temporal. Isto acontece porque ocupamos demasiado tempo a produzir comparando com aquele em que não produzimos: o primeiro, devendo resultar no segundo, acaba por invadi-lo.
Exemplificando: um indivíduo que adquira um automóvel novo, comprometendo-se com um empréstimo, fá-lo porque precisa utilizar o veículo durante o tempo laboral, mas igualmente durante o lúdico, caso contrário estaria a despender recursos excessivamente centrados no contexto do trabalho, quando na prática o automóvel é dele e não da empresa para quem trabalha; contudo, porque teve que contrair o referido crédito, tem que trabalhar mais, ocupando com trabalho o tempo do ócio. O que é que acontece? O tempo de trabalho enrola-se sobre si próprio, isto é, o indivíduo passa cada vez mais a trabalhar para poder continuar a trabalhar, a mover-se de carro para ter o emprego que lhe permite mover-se de carro e ter o emprego que lhe proporciona o carro que lhe dá o emprego, sempre dentro deste círculo profissional, o que resulta no progressivo desaparecimento do tempo lúdico, para o qual, desde a civilização, também trabalha.
Ora, hoje, com o trabalho cada vez mais precário e o futuro menos garantido, este fenómeno tende a aumentar, muito ajudado pelo endividamento que vende trabalho ainda não realizado que tem que se acrescentar ao que se vai realizando. O prazer, esse, fica para outros.

sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril

Do ponto de vista metafísico (se é que se pode usar tal exagero), esta data marca solenemente os pais que a tornaram memorável. Contudo, perde-se nos fisicalismos dos filhos que, sem que os pais tivessem noção disso, aprenderam a falta de consciência dessa História e o excessivo conhecimento dum estômago cada vez mais exigente.
Acontece que os progenitores viveram uma fome cuja morte sonhada seria a escada para um Outro Homem, e os filhos têm uma fome que não morre por mais que se alimente o corpo inseguro. Isto existe não só porque a sociedade é um carrossel de auto-consumo, mas também porque os descendentes estão mais incertos e não deixam de mendigar na abundância.
Para olvidar a necessidade, os pais ergueram um edifício estatal que os alimenta perpetuamente e investiram o que lhes restava nos filhos, nos seus cursos-garantias-de-pertença-à-classe-média-alta-se-possível. Contudo, o real deu-lhes a volta. O que davam com uma mão, já lhes tinham tirado com a outra. Os filhos estão cursados, mas preocupados demais para serem um Homem Novo ou, pelo menos, rico, pois perderam o barco do Estado que partiu para um mar de idosos. Os pais, por sua vez, estão alimentados, mas demasiado velhos para ensinarem um futuro e solitários para terem quem os ouça.
Nisto, a economia revela-se como fundamento: dos pais, que se satisfizeram com ela; e dos filhos, que não conhecem outra coisa. Portanto, temos isto: o ideal é uma entidade individual e a sociedade é uma coisa económica. E o irónico é que talvez não seja assim tão mau.

domingo, março 23, 2008

Educação ideológica

É comummente aceite que a educação facultada por um Estado democrático não deve ser ideológica, isto porque à democracia cabe a neutralidade no que toca à educação dos seus cidadãos. Estes têm o direito à sua evolução política numa panorâmica de oportunidades meritcocráticas.
Todavia, como limites desta distância colocam-se as condições necessárias para a existência de espaço democrático - neste regime tudo cabe, desde que não se periguem os seus princípios de sobrevivência.
Ora, hoje, isto não parece suceder na escolaridade que temos desenhado. Subjacente a áreas disciplinares e de competências designadas como de cidadania, encontra-se todo um espectro de valores ideologicamente posicionados disfarçados de fundamentos democráticos inalienáveis. Deste modo, certas exigências ensinam-se como condições da democracia quando na prática são atitudes políticas que, como tal, estão sujeitas à discussão sem serem condições dessa mesma discussão. São exemplos desta realidade temáticas como “a liberdade de emigração” ou “o multiculturalismo”, as quais aparecem como indiscutíveis conquistas civilizacionais em lugar de problemáticas abertas.
Nisto, corre-se o risco de, a par da legítima imparcialidade religiosa, emergir o politicamente correcto como dogma estruturante duma suposta cidadania de raiz, afastando o espírito desta da sua natureza dialogante, crítica e capaz de mudar para melhor a partir de razões pensadas e discutidas.

domingo, março 02, 2008

O mundo académico

Ironicamente, o mundo académico, apesar de ser mormente observador, passa excelentemente por observado quando se procura um laboratório da espécie humana. Nele, o melhor e o pior se conjugam numa moeda que roda no ar a uma velocidade tal que ambas as faces se confundem numa só.
Assim, onde um dos últimos redutos do espírito desinteressado, curioso e criador se encontra, desenrolam-se a seu par uma competitividade distintiva, uma caça ao subsídio e um determinismo politizado que confundem quem veja a ciência, à partida, como lugar de virtude. Há, socialmente, uma certa construção que começa do exterior e condiciona o lugar em causa (existem estudos famosos sobre este aspecto).
Se nos centrarmos no indivíduo, a perplexidade não é menor. O conhecimento em si parece ser alvo da sombra que emerge sonâmbula do exibicionismo e da ânsia de estatuto: «leio muito, sei muito, despejo em vós uma panóplia infindável de pensadores e isso não me serve para pensar, mas meramente para mostrar que anos fechado na biblioteca hão-de servir para alguma coisa e para alguma posição». Psicologicamente, há também uma construção que se inicia exteriormente à vontade de conhecer e se alimenta da ambição pessoal altamente psico-sexual.
Portanto, quando vemos a virtude científica, não podemos esquecer o que se insinua como seu inverso: uma dinâmica social alvo de interesses políticos com os quais é preciso, silenciosamente, corroborar e a tentativa desesperada de mostrar que se sabe, longe do objecto em si, da intenção científica original, numa valorização excessiva da referência bibliográfica (não que ela não seja necessária, mas não deve ser o centro, julgo) em detrimento dum fio de pensamento que deve ser original e que só se poderá ver legitimado, assim, por um passado que muitas vezes se conquistou à custa da destruição desta lógica.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Da gabarolice e do indivíduo

Uma das paulatinas deturpações da alma humana é o auto-elogio que amiúde resulta da auto-descrição. Ele pode acontecer, ora porque nos é solicitado – o que, vá lá, o torna desculpável –, ora porque não resistimos à tentação de o lançar à cara dos outros – o que é, decerto, o primeiro passo para uma certa queda do indivíduo, não só aos olhos desses outros como em termos da sua própria consistência interior.
Assim, os outros passam a ver o indivíduo doutro modo porque, mesmo que antes o admirassem, encontram um defeito (a gabarolice) e – o que é mais importante – deixam de ser eles quem atribui as qualidades à existência autêntica e espontânea daquele que se vem a gabar, para ser este a fixar forçadamente em si holofotes analíticos bem distantes da autenticidade e da espontaneidade que a vida como tal incorpora. Ou seja, deixa de haver dádiva fluida para haver imposição fixista.
Ao mesmo tempo, a consistência interior é abalada porque, no processo de enrolamento sobre si, o sujeito deixa de olhar os outros, inibindo-se de se lançar sobre o mundo como existente pleno e em busca, passando a reificar características que o insinuam como ser final e acabado à semelhança duma pedra perfeita.
Portanto, tanto porque se choca (literalmente) os outros, como porque se coloca uma espécie de ponto final naquilo que é uma vírgula no âmago do ser, a gabarolice constrói o espectro daquilo que se poderia ser mas se perde à força de se exibir.

sábado, janeiro 12, 2008

Da gabarolice e do capitalismo

Somos uma sociedade de gabarolas, pretensiosos, pedantes, excessivamente auto-elogiosos. Claro que cada um de nós o pode ser por simples natureza de espírito, condições educacionais específicas ou por uma única circunstância determinante. Contudo, parece-me que é cultural.
Desenvolvemos um conjunto de injunções sociais que nos obrigam a reter como colectividade estas características tão egolatras. Isto acontece, julgo, porque somos constantemente obrigados a tentar convencer alguém de alguma coisa que nos favorece tendo que mostrar, a um tempo, que não, que na realidade quem é favorecido é esse alguém. E somos, com certeza, intermitentemente emissores e receptores deste discurso sempre nessa condição dupla dependendo da situação em causa.
Convencer obriga a exibir credibilidade, pois a mensagem quase nunca chega quando não é grande coisa ou necessária para o ouvinte. Nisto, temos que nos mostrar bons, mesmo que à custa da falácia. E o sistema quer vendas e compras.
Temos os exemplos clássicos: a publicidade e a política, onde a primeira impressiona com produtos e a segunda com pessoas. Esta última acaba por ser mais pegajosa devido à sua dimensão humana. Todavia, não são os únicos: os media, os comerciantes, os vendedores, os profissionais em geral e até os alunos têm que mostrar valor - seu ou daquilo que vendem. Quando o mostram voltados para o mundo e cercando o Eu de silêncio, tudo bem. Mas quando um pavão qualquer emerge como fim último por trás da mensagem, então reificamos o ego como móbil que inventa as necessidades - alimento dum capitalismo retórico.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Para uma visão crítica do conhecimento

Por vezes, o conhecimento não parece um benefício. Bem pelo contrário, surge como agitador depressivo e despoletador de ansiedade. Vejamos.
Em Psicologia, estudos relativamente recentes mostram como, para certas pessoas, conhecer a causa de um problema pessoal e comunicá-la a outrem prejudica o seu estado psíquico, agravando uma situação que no desconhecido parecia mais equilibrada. Portanto, um saber que fixa o indivíduo num espaço mental problemático demasiado maioritário em comparação com o espaço mental não problemático.
Outro exemplo é a conjugação de conhecimentos de medicina (ainda que parcos) com um excessivo auto-cuidado: hipocondria, claro. Isto é, o indivíduo curva-se sobre si mesmo aplicando a todo o seu organismo-no-tempo categorias de diagnóstico que, no fundo, lhe turvam a vista de preconceitos que poieticamente fazem nascer no corpo sintomas sem doença. Neste caso, a problematização é um estado prévio que engaja o indivíduo num controlo do real.
Assim, tanto o processo de "saber-a-causa", presente na primeira situação, como o de hipocondria, a que se pode chamar "criar-a-causa", resultam do conhecimento. O primeiro mostra que conhecer pode não resolver um problema, mas antes agravá-lo. O segundo demonstra que o conhecimento pode criar problemas onde eles não existem.
Ora, ambos os processos aparentam suceder também em termos sociais, algo possivelmente presente nos dias de hoje, onde um misto de depressão e histeria amiúde invade o quotidiano concreto e os conteúdos dos media. A depressão acontece porque sabemos que Deus não existe, que os Homens são naturalmente maus, que o ambiente ameaça a existência humana por culpa desta, que os juros sobem, que o amor é difícil, que as pessoas mentem ou que cada um de nós pode morrer de um momento para o outro. Por sua vez, a histeria sobrevém quando olhamos à nossa volta e temos medo, medo de milhares de coisas que conhecemos e de outras tantas que inventámos, medo dos Homens de que aprendemos a desconfiar, da Natureza que sabemos inventar vírus que nos matam, medo de não respondermos às exigências estéticas que a sociedade nos impõe, de não sermos amados por quem amamos ou de que os outros nos queiram mal, tudo isto ao ponto de, por vezes, crermos que existe o que criamos.
Portanto, sabemos demais. E esta sociedade, a do conhecimento, da informação, da tecnologia ou do que quiserem, com sabedoria, nem sempre nos dá felicidade. Dá-nos que pensar sem tempo, o que apenas nos serve para comunicar e exibir sentimentos sem sentido.

sábado, dezembro 01, 2007

Ver o Corpo

Paradoxalmente, numa sociedade tão corpórea, tão voltada sobre a sua carne e adornos, assistimos a um distanciamento do indivíduo em relação ao seu próprio corpo. Não no sentido duma menor preocupação com este (bem pelo contrário), mas em termos dum acentuar da sua instrumentalização por parte do Eu.
Ambos dissociam-se permanentemente: o Eu olha para o corpo como matéria maleável, logo exterior, e, quando sem correspondência às suas idealizações, recusável, expulsável. Nestes casos, por vezes, o Eu refugia-se num solipsismo anti-reflexo divorciado do seu próprio fenómeno. E ao contrário do que se poderia pensar, até quando ambos parecem unidos numa aceitação mútua, em que o corpo, portanto, aparenta corresponder às idealizações do Eu, obedecendo eventualmente aos seus malabarismos, há um inalienável hiato: o corpo torna-se instrumento de poder – aceite pela sociedade, serve as ambições do Eu, que deixa de investir noutras dimensões valorizadas, mas talvez mais trabalhosas, e passa a usar o corpo como meio de ascensão social na qual todos, sistemáticos, colaboram, não só vivendo a atracção sexual, mas correspondendo reforçantes à face dum evolucionismo conseguido.
Assim, o abismo ocorre porque o Eu o corpo. Para ver: a distância. E tudo em seu torno o perspectiva: os media, a publicidade, os comportamentos resultantes, o reenvio destes para os media e o alimento recíproco deste ciclo coloca o corpo no palco-laboratório onde, como espectador-cientista, o Eu humano possui um corpo nas mãos em lugar de ser um corpo com mãos.

domingo, novembro 11, 2007

Educação adormecida

Faz-nos falta o escândalo. Não que ele não exista em potência em inúmeros factos, mas porque o seu lugar de acontecimento, nós, não o detecta, não o sente como reacção ao facto, existindo inexistente num quartinho de sonho onde ninguém acorda.
Por isso, não é escandaloso que o Estado se prepare para oferecer diplomas do ensino secundário (em muitos dos casos) sem que exista qualquer correspondência efectiva com o esforço que um nível desses deve significar. Por isso, não é escandaloso que o critério de financiamento das universidades (número de alunos) subverta a sua natureza e as transforme em instituições desesperadamente à procura de alunos (qualquer um serve). Por isso, não parece ser suficientemente escandaloso a desvalorização da falta dos alunos às aulas, num acto cego ou altamente distante do modo como se responsabiliza um adolescente, pois a proposta foi insinuada e aparentemente camuflada em novo formato mais soft. Por isso, escândalo não é que os professores sejam avaliados também pelo número de alunos que passam, esquecendo-se que o humanozinho, se não concretizar a aprendizagem no seu aluno, vai consegui-lo na sua carreira – transitam todos de nível. Por isso, não há-de ser escandaloso, portanto, que um Estado infantil se entretenha mais em dourar a estatística que justifica o dinheirinho europeu do que a concentrar-se na efectiva formação de cidadãos cada vez mais incentivados a lutar por diplomas do que a desenvolver competências.
Assim, neste lugar sem escândalo, ninguém se preocupa, pois dizem que faz rugas e o mais importante é que uns tipos louros e protestantes alimentem os irreformáveis católicos.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Ausência

Há que justificar a ausência: injustificável. E há que aparecer de novo, porque sim, porque se optou por uma certa exposição, num misto de exercício e construção teórica, fundamentalmente teórica. Não sem um certo desejo de arte, invejoso, incapaz, sempre caindo no conceito que agarra, avarento, pronto a dominar o mundo. Egocêntrico, sem dúvida. Contudo, não esqueçamos, há um esforço para fora, ético, que precisa das forças internas para poder oferecer alguma coisa, sempre na balança que pende entre um maior peso do Eu e um maior peso do Outro. No percurso, ganha-se alguma consciência e certos laivos altruístas, mas provisórios - basta perder o chão, a auto-estima, e de novo a nudez se revela pulha e medíocre. Mas ensaiando, arrepanhando, por vezes na senda das tentativas de injustificável ausência.

sábado, setembro 15, 2007

A mão invisível

O liberalismo é uma tentação. A livre concorrência privada favorece, em termos gerais, a qualidade e a quantidade dos produtos, pelo menos no que diz respeito à sua relação com o preço. Uma equação que parece simples: a competição potencia os mais fortes garantindo a prevalência da sobrevivência da espécie que o bom do consumo permite – associação natural ao darwinismo. Contudo, se considerarmos que qualquer coisa de ético se criou com o humano, devemos reparar nos espaços negros deste tabuleiro: os cativeiros do trabalhador. Estando inserido no sistema que compete, a sua força de trabalho é aproveitada no seu máximo de tolerância a um baixo ordenado, a que corresponderá um maior lucro da empresa, nunca distribuído verdadeiramente, antes capitalizado em novos investimentos ou absorvido pelo proprietário. Por isso, o cidadão, na sua dupla condição de consumidor/trabalhador, vê retirar-se-lhe com uma mão o que se lhe dá com a outra. A tal que é invisível, decerto.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Os livros

E apanho a bola, daqui, já um pouco tarde, mas dentro do tempo. Livros da minha vida, claro, é impossível, a vida é demasiado densa e curta para tantas importâncias. Mas arranjo um critério. Escolho-os pela novidade que trouxeram ao momento em que os li, como um impulso. Cinco livros impulsionadores: 1) O Discurso do Método, de Descartes. Com dezassete anos, deparei-me com a existência de qualquer coisa mais certa que poderia ser descoberta com simples procedimentos mentais. Fascinante! 2) Ulisses, James Joyce. A escrita como exercício estético de captação das rugosidades da vida sob a égide duma aliança entre a forma e o conteúdo – quase tudo escapou ao entendimento efectivo. Pretensão! 3) Húmus, Raul Brandão. Já depois da queda de todas as certezas, o encontro com a ruminação profunda escondida debaixo do silêncio dos dias. Comichão! 4) Metamorfose, Kafka. Na realidade, o corpo como matéria inelutável de proximidade, a pessoa esmagada pelo alter-organismo imposto. Porra! 5) Poesia, de Jorge de Sena. A lucidez como a única forma de verdade compatível com a paz de espírito. Comecemos! Chuto agora para a Petunia, o Bruno, o Pedro, o Impensado e a Alexandra.

sábado, agosto 25, 2007

Eduardo Prado Coelho (1944 – 2007)

A minha relação pessoal com Eduardo Prado Coelho não existia. Mas ele parecia, aparecia, como construção dos seus textos, quotidianamente perto. A princípio, provocando uma admiração solene. No fim, uma certa irritação, mas sempre desculpável, como acontece com os amigos - imaginável neste caso. Falava demasiado da sua vida, defendia escandalosamente os próximos e até se debruçava de modo hermenêutico sobre novelas. Mas estava lá, presente, demasiado presente, descobri hoje. Senti o seu falecimento como altamente inoportuno, como se descobrisse a morte como realidade geral e isso me ferisse estranhamente. Além disso, surpreendi-me com a ausência de banalidade nessa reacção. Afinal de contas, era apenas mais um desconhecido mediático que morria. Mas não, pelos vistos não, ele era qualquer coisa mais, talvez mais humana, cheia dos bons defeitos do humano que agora já não irritam.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Torre Bela

Um documento cujo traçado narrativo é uma autêntica fenomenologia das emoções e das razões presentes na vivência ideológica e social do comunismo. Primeiro, a crença e, a seu lado, a emoção, quase lacrimosa, duma esperança amalgamada em povo, em que se perspectiva no outro a possibilidade dele ser um mesmo de boa fé pronto a uma realidade paradisíaca: tomando a igualdade pelo bom. Segundo, o esforço de organização e racionalização do trabalho e da distribuição dos bens de modo a garantir a desejada equidade que ponha a salvo do conflito e da injustiça a utopia programada. Terceiro, o desencontro interno e entre si dos dois pontos anteriores: a solidariedade resvala em pequenos actos de cobiça e inveja, a equidade depara-se com as naturais dificuldades dum cálculo distributivo necessariamente complexo e a vontade e a razão não encontram entre si o espaço de encaixe. Enfim, os Homens não mereceram as grandes ideias e acabaram todos na prisão.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Os homens que a usam

Uma das discussões mais recorrentes em vários campos das ciências sociais e humanas e no âmbito filosófico é a que procura determinar o benefício ou prejuízo da tecnologia. Por um lado, afirma-se que esta colocou o humano num novo patamar funcional, dando-lhe potenciais que antes apenas podiam ser sonhados e que agora se concretizam. Por outro, defende-se que, em vez de libertar, a tecnologia condicionou a acção de modo a que o homem se tornasse seu servo em lugar de senhor. Contudo, talvez seja possível superar este antagonismo deixando de olhar para a tecnologia e passando a fixar o ser humano. Provavelmente, todos os defeitos são deste. O que na realidade a tecnologia fez foi agigantar os caracteres definidores da humanidade, ora aumentando os bons, ora os maus. Assim, quando se quer libertar, a tecnologia liberta, quando se procura submeter, alguém é submetido, não pela tecnologia, mas pelos homens que a usam e provocam as suas consequências mais distantes.

domingo, agosto 05, 2007

Amigos

Com eles, reencontramo-nos, simplesmente porque antes talvez nos tenhamos esquecido de nós, de quem somos, dispersos por qualquer coisa que sonhamos. Por isso, aguardamo-nos, prontos a nos reconhecermos em cada novo cruzamento, onde ficou plantado um ser que forjámos nos seus olhos com a verdade que a autenticidade, gaveta de defeitos, nos proporcionou, crente na possibilidade de chegarmos como pessoas. E assim, neles, vemos num espelho a nossa figura desenhada com a mesma tinta com que esboçámos os seus rostos, para que também eles vissem mais de si próprios quando nos vêem. Nisto, não há deveras complexidade que esconda a simplicidade com que o mundo pode, em alguns dias, ser um pouco mais profundo, ainda que tecido de ideias errantes.

sexta-feira, julho 27, 2007

Um barulho

Por vezes, não há nada a dizer, a que corresponde um estado de espírito difuso, enevoado e marcado por indeterminações atómicas. E as palavras são mãos que agarram, que castigam os estilhaços com uma suposta certeza fechada e frontal. Contudo, por vezes, não seguram coisa alguma, apenas inventam uma disposição que toma o lugar da face que esconde uma espécie de tormento, dum redemoinho nervoso de indefinição, duma ausência do carácter idêntico que se encontra entre os elementos variados que compõem o próprio. Isto – repete-se – como espécie e não como lugar. Portanto, uma feira e uma rosca, uma venda enroscada e uma parede de pano, um cantor surdo rodeado de aplausos, um motor, um barulho e, apesar de tudo, o gostar de dizer.