sábado, novembro 28, 2009

Estética imanente

Hoje em dia, é mais que tida e retida, do ponto de vista filosófico, a ideia de que já não existem fundamentos absolutos para a razão, a ética, a moral e a prática em geral da humanidade, não se permitindo, por isso, uma efectiva universalização legítima do que quer que seja, a não ser através de um consenso nunca totalmente universal e sempre sujeito à reformulação decorrente da discussão que a racionalidade parcial permite e a luta social provoca.

Recusando-se o fundamento universal como critério, afasta-se da legitimidade argumentativa aspectos fulcrais do pensamento de filósofos como Platão, Descartes ou Kant. Platão defendia uma “ideia em si”, Descartes uma “substância pensante” e Kant os “transcendentais” como elementos que, embora de variados modos, apareciam como sustentadores seguros do caminho humano, ora como guias éticos, ora como critérios epistemológicos.

Considerando particularmente aspectos dos “transcendentais” kantianos, gostaria de os utilizar para introduzir uma inflexão que pretende mostrar como, mesmo sem uma transcendência que nos abrace no calor da certeza, somos obrigados a nos decidirmos por alguma coisa com exigência universal, muito por força duma espécie de determinante físico e imanente.

Explicando Kant de modo simplificador, mas útil, pode-se dizer que o filósofo alemão defendeu que, na nossa relação com a experiência, existem uma séria de intuições e conceitos prévios à mesma que actuam transcendentalmente como molduras organizadoras e operadoras daquilo que se vive, o que acontece aos níveis estético (os sentidos), onde cambem algumas intuições, e lógico, onde se integram alguns conceitos. Estes dois patamares estão ligados, sendo que o estético, naturalmente, é aquele que sente o mundo. Em ambos existem componentes puros com o carácter descrito que não são aprendidos mas que são fundamentais (literalmente) na configuração da nossa vivência e pensamento sobre a mesma. Como se disse, isto, em geral, foi rejeitado, considerando-se que o que nas palavras de Kant é transcendental, na realidade é imanente ou, na melhor das hipóteses, resultado de uma construção biológica evolucionista.

Gostaria, então, de pensar em particular as intuições puras da estética transcendental de modo não transcendental. São elas o espaço e o tempo. Segundo Kant, estas molduras não derivam da experiência, mas são condição da sua possibilidade como formas puras, a priori, da sensibilidade. Existem coisas no espaço e acontecimentos no tempo, mas não existem coisas sem espaço ou acontecimentos sem tempo. No máximo, espaço sem coisas ou tempo sem acontecimentos. Para não tomarmos o espaço e o tempo como formas puras transcendentais, de modo a nos mantermos no argumentário contemporâneo, somos obrigados considerá-los como formas impuras e imanentes, isto é, como formas da experiência. Como tal, o espaço mais não é do que a experiência da simultaneidade e o tempo a da sequencialidade (Reis). Portanto, vivemos no espaço e no tempo e estes são conceitos resultantes da experiência.

O argumento que aqui se defende é o de que, mesmo como conceitos empíricos, digamos assim, é possível considerar o espaço e o tempo como condicionantes da experiência e, de certo modo, despoletadores da procura do fundamento e do universal. De facto, aprendemos a viver na simultaneidade de coisas e na sequencialidade de acontecimentos, e isso determina toda a perspectiva e cálculo (quando possível) da experiência futura. Tal é sentido como um condicionalismo que obriga à produção de critério e à exigência de alguma universalidade.

Não existindo um critério transcendental para definir o que é verdadeiro ou falso (a partir de uma certa margem consensual de estilo), não deixamos de ser obrigados a uma decisão (fundante) por via dos limites do espaço e do tempo, quando temos, por exemplo, que definir o que reunir numa enciclopédia, considerando o volume necessário para uma manipulação condizente com a anatomia humana e a sua arquitectura (espaço) ou com a sucessão de leituras exigível ao longo dos anos (tempo). Um processo de selecção a este nível obriga a que se escolha um critério o mais universalizável possível. O que exige discussão, debate e algum consenso. Um exemplo ético em vez de epistemológico poderá ser o da interrupção voluntária da gravidez. Mais uma vez, não existindo um fundamento transcendental para uma resposta absoluta à pergunta sobre se esta prática deve ou não ser descriminalizada, não obstante, fomos obrigados a fazer uma lei, porque esse acto acontecia (tempo) em certos lugares (espaço) e tudo indicava que continuaria desse modo, daí que a sua existência sucessiva e simultânea nos tenha exigido uma decisão. Nisto, fomos compelidos a escolher uma tese, independentemente do seu apoio divino ou metafísico.

Portanto, de um modo empírico, os limites do tempo e do espaço impelem-nos à fundamentação e à universalização, não só porque morremos e isso nos obriga a uma agenda (uma questão, em parte, heideggeriana), como porque materialmente nos encontramos configurados por leis e formas físicas que nos enformam opções necessárias. Deste modo, a estética transcendental de Kant é imanente e faz suceder uma analítica de conceitos (também imanente), quando se pensa o fundamento, doutro modo preguiçosa e eventualmente inexistente.

1 comentário:

felipe disse...

sublime. parabéns!