quinta-feira, maio 19, 2005

Clubismo

Qual o sentido do clubismo, da identificação dedicada a um clube de futebol? Parece uma escolha aleatória, levada por causas familiares, quer de integração quer de rejeição, ou por avanços intuitivos impossíveis de racionalizar. Depois dessa escolha, passa-se a pertencer a um território virtual, a uma família que se distingue unicamente pela cor, o local do estádio e as datas em que se foi campeão, além das personagens que compõem o ramalhete da história do clube. De resto, o que faz pertencer? É uma pertença destituída de sentido, uma pura forma ausente de conteúdo. Ao nível dos valores e dos projectos humanos, ser do Benfica, do Sporting ou do F. C. do Porto é a mesma coisa: esses valores e projecto simplesmente não existem. Pertence-se a um terreno de defesa e de ataque, grita-se, discute-se socialmente e avança-se na força das massas que se alimenta da pura energia de um nada. Vencer, aí, é sempre encontrar o vazio.

2 comentários:

João Dias disse...

O clubismo é a expressão da negação da razão por intermédio da alienação face a uma entidade que visa alcançar objectivos na área do desporto.
Mas é mais do que isso, é ver só uma equipa e ver nela o expoente máximo do que é jogar futebol, é arranjar desculpas para a equipa quando joga mal, é ser fanático de uma causa doentia.
O clubismo é não aceitar o valor de um adversário ou que outra equipa possa jogar melhor.
Clubismo é não aceitar a qualidade única de Mourinho por ele ter sido treinador do Porto.
Clubismo é a estupidez máxima do futebol, porque como diz o meu pai "para ver o Benfica vou aos treinos. Um jogo de futebol são duas equipas a jogarem... ganha quem fizer mais por isso."

Filipe Mesquita disse...

1.Não é dificil entrever nos dias que correm a constante desfiguração do sentido, e a consequente edificação de uma experiência vital "intuitiva impossivel de racionalizar"; e isto tanto no particular como no geral, ou seja, embora sendo mais visivel no futebol a ausencia de sentido, valores e projectos humanos isso significa meramente a presença da metastase.
2.Desde logo é possivel dizer o mesmo por outras palavras: a opacidade actual do sentimento clubiste reflecte a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade de consumo. Mas por entre a torrente da mediatização e da comercialização que procura espetacularizar o sentido (ou sentimento) é possivel establecer uma critica, sendo-se adepto ou não.
3.É com estas premissas que me ponho diante das questões mais salientes do post: 1.qual o sentido do clubismo? 2. os clubes são iguais na sua incapacidade ética 3.o vazio da vitória desportiva (sendo este vazio derivado da ausência dos valores)
3.1.A primeira questão encontra-se praticamente respondida no próprio post: parte da minha identidade é aleatória (não escolhemos o nosso nome, nem a nossa naturalidade....) ou seja que nos é dada uma possibilidade de escolha em contra ou a favor da nossa familia e cidade. Esta escolha, tal como tu dizes, abre-nos portas para uma mundivivência particular, instala-nos numa "cosmogonia" plena de sentido (locais, história, figuras...). É obvio que estes clubes/mundos estao em acentuado processo de descaratrização e massificação. Sem duvida que hoje a nossa escolha é limitada vistos os clubes serem aparentemente iguais (porque o que se perde com a mediatização e massificação é precisamente a história e a individualidade).O individuo enquanto adepto encontra-se com os mesmo problemas que se encontra enquanto cidadão, pouca margem de manobra, tendencia a ser espectador (as cidades são cada vez mais iguais, tal como os partidos....).Assim a resposta a primeira questão resume-se pelo seguinte: é possivel (ou era) ser-se adepto de um clube com pleno sentido, seja este sentido construido contra ou a favor da comunidade. Pela minha parte sou dos que são a favor, sou filho e neto de portistas, portuense e nortenho e portanto portista ferrenho. Integro-me com gosto na circunstância que me foi dada a viver.Aceito aquela parte de mim que nao é construida pela racionalidade mas que é alvo da racionalidade critica. Rematando: o sentido do clubismo deve ser a atenção dedicada à componente desportiva de uma comunidade, onde nela se reflecte a geografia e história. Este sentido encontra-se ameaçado pondo em causa a autenticidade do adepto, pondo em marcha o hooligan e consumidor (ambos com experiencias de sentido difusas e compulsivas).
3.2 Os clubes nao sao iguais na sua incapacidade etica visto não serem iguais no seu entorno e na sua historia. Cada clube apresenta possibilidades eticas diferentes a serem exploradas por um sentido critico. Desde logo uma analise seria nao permite dizer que o adepto medio do Benfica e do Porto sao iguais ao nivel dos valores. Sendo esta questao alvo de uma analise particular devido as suas implicações fica aqui uma breve abordagem. Tenho como seguro que o adepto medio do Porto tem um nivel de exigencia muito superio em relaçao com o adepto medio do Benfica. O Benfica precisamente pela sua especifidade ( ora aí está, nao pela sua igualdade) encerra em si uma serie de sentidos extremamente uteis para o estudo da sociedade portuguesa (tal como o porto para a sua cidade). O Benfica tal como a seleção nacional transcendem a mera actividade desportiva, contendo em si o que quase sempre atribuem ao Porto (cidade e clube).
3.3. A terceira questão como vimos é derivada da segunda. As vitorias do Benfica, ou da seleção, precisamente por serem raras, nao conteem em si precisamente o culto da vitoria. Nao celebra nada de concreto porque pela sua historia este sentimento é muito pouco racional, tudo se concentra num distendido sentimento de grandeza e gloria.Sem duvida que um benfiquista, massificado ou nao, se encontra a miude com o vazio.
Será diferente com os portistas???
Para mim certamente que o é, um portista quando vence é contra tudo e todos e por exclusivo merito desportivo (tal como se ve nas recentes vitorias europeias).Sao vitorias nossas e para nos, para todos, portistas portuenses, nortenhos, portugueses, vitorias contra o desprezo dos medias e dos demais adeptos.Celebramos o nosso clube, a nossa cidade, e por inerencia, o nosso país.