quarta-feira, março 22, 2006

O Tabaco

Proponho-me pensar o tabaco. Para tal, socorro-me do facilitismo da clássica distinção subjectivo/objectivo. A primeira oposição talha-se de interior, a segunda de exterior. O tabaco, esse, é o vértice sob a forma de vício - anulação da liberdade - em torno do qual se configuram os dois movimentos. Subjectivamente, é uma dependência tautológica, isto é, o consumidor fuma porque começou a fumar, não porque o tabaco lhe provoca algum efeito extra, fazendo-se sentir, por isso, na forma de ausência obsidiante. Objectivamente, insere-se num sistema social de consumo, no mínimo paradoxal, em que, por um lado, existem produtores de um objecto de consumo mortal que ao longo do século XX beneficiaram de uma publicidade cultural plasmada em produtos como o cinema e a televisão e, por outro, uma medicina que procura parar a doença provocada por esse lucro e uma propaganda que pretende a redução do compra dessa causa de morte, ambas de altos custos para o Estado. Assim, todos os que fumam alimentam uma indústria de grandes lucros, pagando com o corpo e com o capital do Estado: uma longa fila para a morte, paga e consciente. Mas a perversidade maior é a do encontro entre as dimensões subjectiva e objectiva: quando o fumador é avisado pelo próprio produto de que ele "pode causar morte lenta e dolorosa", e mesmo assim a inspiração não pára - os nervos a isso o obrigam - impõe-se uma relação de auto-destruição consciente, mas involuntária. Assim, tanto individual como socialmente, temos aqui a prova de que o Iluminismo nunca poderia singrar, somos demasiado irracionais para que o pensamento nos mude, inclusive a quem pensa. A Razão é uma caixa bem guardada... por trás do fumo.

Sem comentários: